A oferta inicial da Rede D’Or, dona dos hospitais de mesmo nome e da bandeira São Luiz, é uma das mais esperadas da próxima leva de IPOs. A companhia pretende levantar 8 bilhões de reais com uma emissão primária e ainda está  decidindo qual tamanho pode ter a parcela secundária da oferta, da venda parcial dos atuais acionistas. A prioridade é captar recursos para o crescimento. Por isso, o tamanho da operação secundária vai depender bastante do apetite dos investidores e do momento da bolsa em que ocorrer a colocação.

Um dos motivos de um negócio nada trivial como gerir hospitais ser badalado já na largada é a história de consolidação e crescimento promovida pela família Moll. Há mais de uma década, eles viram o espaço para esse movimento e foram em busca de sócios e capital. Com isso, o grupo que era líder saiu na frente,  promoveu uma verdadeira onda de aquisições — nada menos do que 37  — e fez investimentos bilionários. Durante vários anos, foi quase o único consolidador de peso do setor. O Ebitda pulou de 113 milhões de reais para 3,7 bilhões de reais em uma década, de 2009 a 2019. O valor da empresa, naturalmente, seguiu a mesma toada, mesmo de capital fechado.

A história da maior companhia de saúde do país começa quando o cardiologista Jorge Moll Fillho se dá conta de que a medicina diagnóstica entrava em uma nova era e abre um laboratório especializado em Botafogo, no Rio de Janeiro, em 1977. Os exames de imagem começavam a se tornar mais acessíveis ao público e surgia uma gama de médicos dedicada só a essa função. O negócio cresceu apenas como laboratório, com a bandeira Cardiolab, por quase 20 anos, até que Moll convenceu Jacob Barata (que recebeu o Hotel Copa D’Or como saldo de uma dívida do antigo dono Gaspar D’Orey) a transformar a unidade em hospital. Tornaram-se sócios. O ano era 1995. Dali em diante, o grupo cresceu atendendo o carente mercado do Rio de Janeiro. Em 2010, quando recebeu o primeiro aporte de capital, do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), já era a maior rede independente de hospitais do país e Barata não era mais acionista.

O grupo ainda está aquecendo os motores para as rodadas de conversas com o mercado. Mas o discurso será de manutenção da expansão dos últimos anos, só que em ritmo até mais acelerado. Muitos investidores ainda não se debruçaram sobre os números, mas o interesse em avaliar a oportunidade é quase uma unanimidade. “A decisão de compra vai depender do preço, mas o espaço de consolidação e crescimento que tem no setor é um grande chamariz”, afirma o gestor de um grande fundo nacional. A Rede D’Or será a primeira empresa pura de hospitais — ou seja, independente de uma operação de plano de saúde —  de capital aberto.

Do setor de saúde, os destaques na bolsa atualmente são os grupos Notre Dame Intermédica, avaliada em 42 bilhões de reais, e Hapvida, que vale hoje quase 50 bilhões de reais, ambos com operação integrada entre planos de saúde e atendimento hospitalar. Até 2015, a legislação brasileira impedia a participação de capital estrangeiro no controle do setor de saúde, o que é parte da explicação para a família Moll ter buscado recursos com fundos de private equity.

Muitos comentam que essa pode ser a tão aguardada estreia de uma companhia de 100 bilhões de reais de avaliação. O número a posicionaria como a maior empresa a fazer IPO na B3 e a colocaria entre as dez maiores listadas. Só que após a desistência da varejista Havan no mês passado, outra promessa de centena de bilhão na bolsa, os bancos de investimento não querem mais criar expectativa nem no mercado, nem nos controladores da companhia — especialmente em transações com tanta visibilidade.