O Dia Mundial da Saúde foi comemorado no dia 7 de abril, e talvez um dos maiores desafios de saúde pública, atualmente, seja diminuir o número de adultos e crianças com sobrepeso ou obesidade. No Brasil, segundo divulgado pela Associação Brasileira para o Estudo da  Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), mais de 50% da população adulta está acima do peso, ou seja, na faixa de sobrepeso e obesidade. Dentre as crianças, esse número seria de 15%.

Os hábitos alimentares atuais – com o consumo excessivo de alimentos industrializados e açucarados – e a carência da prática de exercícios físicos são os principais vilões do aumento do número de pessoas acima de seu peso ideal. “Se a gente fosse estipular uma fórmula mágica para resolver esse problema, seria manter uma alimentação saudável, com consumo adequado de frutas e verduras, e praticar atividade física”, afirma a médica endocrinologista e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) Mariana Santos.

No início deste ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) ampliou as indicações para que pessoas com obesidade moderada possam fazer a cirurgia bariátrica, popularmente chamada de “redução de estômago”. A lista de comorbidades associadas como diabetes, dislipidemia, apneia do sono e hipertensão arterial foi ampliada, totalizando 21 novas indicações, dentre as quais estão asma grave, problemas ortopédicos como o desgaste dos joelhos ou hérnia de disco, disfunção erétil, infertilidade masculina e feminina e até depressão.

Para a endocrinologista, a ampliação da lista é um ganho para a sociedade de forma geral, mas vale lembrar que a cirurgia bariátrica não é uma intervenção de cunho estético. A depressão, por exemplo, é uma comorbidade que merece uma avaliação muito cautelosa. “São muitos os casos de pacientes que criam uma expectativa muito grande em torno da cirurgia de redução de estômago e ficam depressivos após o procedimento, porque se acostumar a comer menos não é uma tarefa fácil”, afirma Mariana. 

Comorbidades ortopédicas 

Segundo o médico ortopedista, especialista em quadril e membro das Sociedades Brasileiras de Ortopedia/Traumatologia e Quadril (SBOT e SBQ) Fernando Portilho Ferro várias são as doenças que podem acometer um paciente acima do peso ideal, visto que as articulações não se tornam mais fortes e o tecido gorduroso adicional é um “peso morto” que não contribui para agregar nenhuma estabilidade ou proteção às articulações. As doenças mais comuns são artrose dos quadris, joelhos, ombros e coluna lombar, hérnia discal lombar e trombose venosa profunda. Pessoas com índice de IMC acima de 30 têm um risco oito vezes maior de necessitar de cirurgia de prótese total do joelho e também aumenta o risco de dores crônicas difusas sem causa específica como a fibromialgia.

“No consultório, é comum estar diante de algum paciente com problemas causados pela obesidade. Explico que a cirurgia pode ser a única forma eficaz de tratamento, à medida que as dores pioram, mas, infelizmente, muitos pacientes não conseguem perder peso, mesmo diante da possibilidade de poder evitar uma cirurgia”, conta o médico. Para ele, a lista anterior de comorbidades era mais vaga e agora diagnósticos mais específicos foram elencados. “Acho que isso facilita a discussão e evita atritos com planos de saúde. Na prática, não acredito que teremos grandes mudanças na frequência de indicação de cirurgias para esses pacientes”, pontua Fernando.

Quanto à recuperação, o especialista salienta que, infelizmente, a maioria das lesões ortopédicas secundárias à obesidade são irreversíveis, porque a cartilagem é um tecido muito resistente, porém com péssima capacidade de regeneração. “Mesmo assim, vale a pena tentar emagrecer. Pacientes com artrose leve que perdem peso costumam observar menos crises de dor e menor dependência de analgésicos além de adiar a necessidade de uma cirurgia. Obesos que já têm artrose grave e precisam de cirurgia também se beneficiam da perda de peso, pois o processo de reabilitação pós-cirurgia é menos penoso e diminui o risco de complicações. Além disso, a durabilidade da prótese aumenta”, finaliza o ortopedista.