Há cerca de quatro anos, o mercado de clínicas médicas populares vivia um boom, com promessas de expansão e investimentos vultosos. Mas o cenário mudou. Muitas delas não conseguiram crescer no ritmo pretendido e outras fecharam as portas. A maior delas, a Dr. Consulta, precisa reforçar o caixa e está em busca de um sócio, após ter implementado um agressivo plano de expansão.

Em maio de 2016, a empresa tinha 12 clínicas. Hoje tem 57. Fundada há oito anos por Thomaz Srougi, a Dr. Consulta conta com um seleto grupo de investidores como o empresário Jorge Paulo Lemann, o publicitário Nizan Guanaes e o dentista Renato Velloso, um dos criadores da OdontoPrev. Há ainda, entre os acionistas, fundos de investimento como o Madrone Capital Partners, da família fundadora do Walmart, que fez um aporte de US$ 50 milhões na companhia em 2017 e o Kaszek Ventures, que investiu US$ 25,9 milhões em 2016.

Entre 2013 e 2017, a rede de clínicas, com unidades instaladas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, captou US$ 92 milhões com investidores. Em novembro do ano passado, alguns acionistas fizeram um empréstimo para a própria rede de cerca de R$ 50 milhões, segundo fontes. A empresa confirma que houve um aporte, mas não informa valorese os investidores.

O faturamento, porém, não cresceu no ritmo esperado. Em 2017, ficou na faixa de R$ 150 milhões, segundo uma fonte. E no ano passado, encolheu para algo em torno de R$ 90 milhões. A companhia informou que o faturamento é de três dígitos.

Srougi e Velloso negam que a Dr. Consulta enfrente dificuldades financeiras e também não informam a receita do ano passado e se a operação é lucrativa ou deficitária.

“É um grande absurdo que estamos à venda. Crescemos dois dígitos por semana e vamos abrir cinco unidades neste ano”, disse Srougi. Segundo a companhia, nos últimos oito anos foram atendidos 1,3 milhão de pessoas na rede, cuja taxa média de ocupação é de 82%.

O Valor apurou que a companhia contratou o banco J.P. Morgan para buscar uma capitalização. O percentual do capital a ser negociado não está definido, pois depende do preço. Tem havido muitas conversas, mas nenhuma proposta concreta foi feita. Potenciais interessados têm avaliado que o plano de expansão da Dr. Consulta não é viável na velocidade planejada.

A DNA Capital, empresa de investimentos da família Bueno, controladora da rede de laboratórios de medicina diagnóstica Dasa, chegou a fazer uma sondagem no ano passado, oferecendo cerca de R$ 200 milhões pela empresa. O comando da Dr. Consulta, na época, avaliou que o valor estava muito baixo, segundo fontes. Não está claro se o banco já estavacontratado, então. Procurada, a DNA não comentou.

Outras clínicas médicas popular também enfrentam dificuldades neste mercado que vivia um boom há quatro anos. O otimismo era baseado no fato de que apenas 25% da população brasileira tem planos de saúde. E o atendimento feito pelo setor público costuma demorar mais tempo do que o usuário está disposto, ou pode esperar.

Mas a recessão, a partir de 2014 até meados de 2016, e o crescimento lento da economia desde então não estão ajudando o negócio de clínicas populares a prosperar como o previsto.

O comando da Dr Consulta tem dito ao mercado que o banco J.P. Morgan foi contratado para intermediar acordos comerciais com operadoras de planos de saúde. A Dr. Consulta está oferecendo às operadoras um serviço de gestão de atendimento médico primário, ou seja, os usuários de planos de saúde seriam atendidos nas clínicas da rede e acompanhados por um médico de família.

“Cobramos um valor por pessoa e podemos ter um ganho adicional se esse paciente for menos vezes internado”, disse Velloso. Esse modelo é a aposta mais recente do setor de saúde para controlar os custos de saúde e evitar que o paciente seja internado. Segundo Velloso, há negociações avançadas com duas operadoras, mas esse processo não deve ser concluído pelo menos até a metade do ano.