Fundador do dr.consulta, maior health tech brasileira, Thomaz Srougi foi escolhido empreendedor social do ano no GSG Summit 2019, realizado em Buenos Aires, em 18 e 19 de novembro.

É a quinta edição do fórum mundial promovido pelo Global Steering Group for Impact Investment, grupo que atua na União Europeia e mais 23 países para catalisar investimentos de impacto social e ambiental.

“Precisamos de mais pessoas assumindo riscos. Estou falando do risco de colocar os interesses de outros acima dos seus. Risco de deixar uma carreira para trás e criar novo produto ou serviço que possa impactar milhões”, disse o brasileiro ao receber o prêmio na segunda-feira (18).

Diante de uma plateia de 450 investidores, filantropos, gestores públicos e líderes de negócios de impacto e do terceiro setor de 40 países, Srougi, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2019, defendeu que lucro e impacto podem caminhar juntos.

“Quando mais eficientes somos, menor os custos de nossos serviços e, consequentemente, mais acesso oferecemos. No cuidados de saúde, agilidade significa cura”, afirmou ele, sobre a equação a que se propõe resolver no Brasil.
Srougi acredita que o negócio de impacto social nascido na favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, pode servir de modelo para o mundo, à medida que ganha escala com uma rede de 60 clínicas populares, ancoradas em tecnologia de ponta, em São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

Dr.consulta é o tipo de negócio de impacto social que tem chamado a atenção de uma nova classe de investidores.

“Investir apenas para obter retorno sobre o dinheiro não faz sentido. Os investimentos devem ter um propósito social e ambiental, além do econômico”, afirmou sir Ronald Cohen, presidente do GSG, ao entregar as premiações desta edição, que também reconheceu investidores de destaque.

O grupo de líderes do mundo das finanças aposta em uma nova era, a da economia de impacto. “E agora que podemos mensurá-lo, sabemos que os investimentos de impacto têm um retorno melhor do que os convencionais”, disse Cohen, na plenária de abertura.

A cúpula aposta numa mudança de mentalidade no sentido de que não é mais aceitável um negócio que tenha por objetivo único ganhar dinheiro.

“O capitalismo nos serviu bem nos últimos 250 anos, mas se tornou insustentável em sua forma atual. Precisa de mudanças radicais”, avaliou Cohen, capitalista que fez fortuna no mercado financeiro e fundou a Associação Britânica de Venture Capital, o chamado capital de risco.

Segundo o presidente do GSG, que nasceu no Egito e se mudou para o Reino Unido com a família de refugiados quando tinha 11 anos, a revolução tecnológica deve ser seguida por outra.

“A revolução de impacto é imparável e nasce da simples ideia de que podemos mudar o foco único no lucro para o lucro com impacto socioambiental, redirecionando grandes fluxos de investimentos para negócios que vão melhorar o mundo.”

Um discurso que encontrou eco numa América Latina sacudida pelos recentes acontecimentos no Chile, laboratório de um receituário econômico liberal que aprofundou a desigualdade social.

A cúpula global, que se realiza pela primeira vez na América Latina, foi transferida de Santiago para Buenos Aires a um mês do evento, em razão das manifestações violentas na capital chilena.

O Chile esteve presente em várias falas de palestrantes da cúpula.

“Faltou uma mesa específica para discutir a questão e falar da relação de finanças com tudo isso, dos limites do investimento de impacto para fazer mudanças”, avalia Leonardo Letelier, fundador da Sitawi Finanças do Bem, um dos 45 integrantes da delegação brasileira, a maior entre as estrangeiras.

Para Letelier, é preciso também políticas, mobilização da sociedade, envolvimento do terceiro setor, e novos paradigmas, como o do consumo consciente. “Finanças é importante, por ser um dos atores, mas não é suficiente.”

A insatisfação popular e a incapacidade dos governos em oferecer soluções também foram debatidos no encontro por palestrantes como o ministro britânico Nick Hurd.

Por nove anos à frente do ministério voltado para temas da sociedade civil, ele liderou um trabalho inovador de construção de um mercado interno de investimentos de impacto no Reino Unido. Criou um fundo social de 400 milhões de libras, por exemplo, com dinheiro de contas bancárias inativas.

No painel “Por que Governos precisam de Investimento de Impacto?”, Hurd defendeu a necessidade de mais recursos e inovação para que o setor público obtenha melhores resultados. “Especialmente, diante da urgência para responder a anseios de populações que protestam nas ruas de Londres, Hong Kong, Paris, Santiago”, afirmou.

Quem bateu na mesma tecla foi Christophe Itier, alto comissário para Economia Solidária e Inovação Social da França, que viu o governo Macron acossado pelos protestos dos “coletes amarelos”.

“Neste momento de incerteza econômica, social e ambiental, a única certeza é que não podemos nos valer de soluções do passado”, alertou o francês, em sua apresentação intitulada “Capitalismo, Democracia e Desigualdade”.

“Temos que juntar governo, empresas e atores sociais porque o planeta está em perigo. As mudanças climáticas, as migrações e as crises sociais requerem atuar de forma global, mas também local”, completou.

“São falas importantes no sentido de como se precisa inovar dentro da gestão pública e encontrar soluções que possam ser escaladas dentro do governo”, destaca Célia Cruz, diretora-executiva do ICE (Instituto de Cidadania Empresarial).

Integrante do movimento global pelo investimento de impacto, o ICE puxou a agenda de regulação no Brasil, primeiro país a ter um política nacional voltada ao setor.

Criado em 2015, O GSG Group sucedeu a Força Tarefa de Finanças Sociais formada pelos países do G7. Desde o nascedouro, o Brasil faz parte da governança do movimento global que conta hoje com 32 países e ganha corpo ao aglutinar novos e estratégicos atores.

“Cada vez mais instituições financeiras tradicionais estão entrando no tema, assim como empresas passaram a olhar como podem se engajar”, avalia Beto Scretas, consultor do ICE e palestrante desta edição.

Fundações e institutos são outros players importantes, assim como famílias de alta renda que acenam com mudanças no portfólio de seus investimentos, de acordo com Scretas, representante da aliança brasileira em todas as edições do evento global.

O setor de investimento de impacto vem crescendo em volume de recursos em todo o mundo. “Este ano, chegou-se a meio trilhão de dólares, dobrando o montante investido nos últimos dois anos”, compara.

Um dos desafios para atrair mais capital é a necessidade de métricas que comprovem impacto social e ambiental a serem apresentadas a potenciais investidores.

Uma boa notícia é o crescimento da oferta de “Social Impact Bonds”, os chamados Contratos de Impacto Social, já lançados em 35 países.

No Brasil, o Governo Federal acabou de abrir um pregão eletrônico que vai nessa direção, com contrato de desempenho e pagamento por performance em um programa de empregabilidade juvenil.

Sinais de que esta nova economia pode de fato sair do nicho e se tornar “mainstream”.

Neste cenário, a agenda 2030, da ONU, é vista como propulsora do movimento.

Na segunda (18), o Global Steering Group assinou acordo com o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para atuarem em conjunto e impulsionarem a implementação dos ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

O objeto é atuar mais de perto na visão compartilhada de que todo investimento deve ter uma visão de impacto por trás. Uma nova inteligência de mercado, o SDG Investor Maps, vai traduzir em oportunidades de investimento dados coletados pelo sistema ONU em cada país.

“Participar do summit em Buenos Aires reafirma a convicção de que finanças e negócios de impacto social e ambiental é a agenda do futuro”, afirma Sheila Pires, superintendente da Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores).

Ao fechar a cúpula global e anunciar a de 2020 na África do Sul, o lorde das finanças sociais despediu-se dos participantes em Buenos Aires pregando o fim da “ditadura do lucro” e o início da economia de impacto.

“Consigo vislumbrar um mundo onde a desigualdade esteja diminuindo. Onde as reservas naturais sejam regeneradas e as pessoas possam desbloquear todo o seu potencial e se beneficiar de uma prosperidade compartilhada”, afirmou Cohen.

Um testemunho de fé do embaixador de uma nova economia capaz de gerar lucro para o planeta e os excluídos e também distribuir dividendos para os donos do capital.