O envelhecimento da população brasileira e a mudança de perfil epidemiológico deverão pressionar os custos do sistema de saúde privado e público do Brasil nos próximos anos, o que criará desafios para os custos de internação, que atualmente representam mais de 50% das despesas médicas de operadoras e seguradoras.

O total de internações de beneficiários de planos de saúde médico-hospitalares deve saltar de 8,2 milhões, em 2014, para 10,7 milhões em 2030, segundo projeção do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). Enquanto hoje cerca de dois milhões de internações são de beneficiários acima de 59 anos, daqui a 14 anos o número deverá dobrar. As despesas assistenciais do setor de saúde suplementar devem chegar a R$ 396,4 bilhões em 2030, um avanço de 272,8% em relação às despesas assistenciais de R$ 106,3 bilhões, constatadas em 2014.

Segundo o estudo do IESS, em 2030 os planos de saúde devem gastar R$ 260,3 bilhões apenas com internações de seus beneficiários. O montante é mais de quatro vezes superior aos R$ 60,3 bilhões gastos em 2014. Dois desafios futuros serão atender os diagnósticos mais complexos (uma pessoa acima de 60 anos sofre, em média, de três doenças) e esperar que a renda das pessoas acompanhe a alta dos custos, que têm subido acima da inflação em todo o mundo.

O superintendente executivo do IESS, Luiz Augusto Carneiro, diz que o modelo de remuneração existente hoje deve ser cada vez mais discutido no Brasil. “No mundo desenvolvido e em alguns emergentes, como mais recentemente na África do Sul, usa-se um modelo relacionado a diagnósticos em que há valores pré-definidos para alguns procedimentos, como pneumonia; aqui em muitos casos se trabalha com um cheque em branco entre hospitais e seguradoras”.

Para ele, o sistema irá exigir maior transparência entre todos os elos da cadeia. Hoje, segundo a lei 13.003, a Agência Nacional de Saúde (ANS) estabelece reajustes entre 85% e 105% do IPCA para casos em que hospitais e seguradoras e operadoras de saúde não cheguem a um acordo e não tenham um indicador pré-estabelecido em contrato. Os estabelecimentos que chegam ao reajuste máximo têm de contar com selos de acreditação de instituições, como Joint Commission International (JCI) e Organização de Acreditação Nacional (ONA).

O reajuste mínimo é de 85% do IPCA e destina-se a hospitais que não têm selo de acreditação, possuem alta taxa de reinternação e não contam com o núcleo de segurança do paciente. A partir de 2017, a ANS pretende usar esses critérios de reajuste para laboratórios, clínicas médicas, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos, entre outros prestadores de serviços de saúde. A legislação foi criada para interferir na queda de braço entre hospitais e seguradoras. Hoje cerca de metade dos custos de internação no Brasil está na aquisição de materiais e remédios. Nos Estados Unidos o percentual é de 35%.

Para Carneiro, haverá pressão pela apresentação de mais critérios, como a publicação obrigatória de indicadores de qualidade de cada um dos hospitais, que teriam de divulgar taxa de internação, infecção hospitalar, reinternação após 30 dias, mortalidade e erros médicos. “Um modelo de remuneração diferente e maior transparência poderia ajudar a segurar a escalada de preços e forçaria a competição entre operadoras e uma negociação melhor entre hospitais e planos, mas também é preciso discutir algum critério para a adoção de novas tecnologias – parte relevante do aumento do custo hospitalar nos Estados Unidos está ligada a isso”.

No sistema público, o quadro de pressão de custos não será diferente. Para Simone Libânio, superintendente geral do Hospital da Baleia, em Belo Horizonte, a reposição dos custos de internação é um dos problemas que existem no setor de saúde e para os hospitais. “É importante ressaltar que a inflação médica tem sido, historicamente, maior que a inflação oficial. Os reajustes previstos nos contratos dos hospitais com operadoras privadas preveem índices de inflação oficial, o que gera perdas para os hospitais. Além disso, o Sistema Único de Saúde (SUS) não reajusta sua tabela única de procedimentos há 12 anos. Essa situação tem pressionado as margens operacionais dos hospitais, levando vários à insolvência ou redução dos serviços”, diz Simone.

A defasagem dos valores ultrapassa de 30 a 60% dependendo do procedimento médico. Nesse contexto de envelhecimento da população e desenvolvimento de mais doenças de países ricos, sejam câncer, doenças cardíacas ou diabetes, pode haver mudanças no modelo de saúde. “Hospitais são estruturas caras que devem ser usadas para tratar eventos agudos e de complexidade médica elevada; deixar para administrar custos médicos quando o paciente já está no hospital é uma ilusão. Os custos, neste caso, já serão altos, pois hospitais são estruturas de custo fixo elevado”, diz Simone.

O Hospital da Baleia tem buscado elevar sua eficiência e criar novas receitas. Pelo lado das receitas, o hospital trabalha com a identificação da rentabilidade por procedimento hospitalar, classificando-o em uma matriz que lhe permite estabelecer ações gerenciais e comerciais que se traduzam em garantia da rentabilidade. “O hospital pavimentou as bases de uma mudança de gestão com foco em rentabilidade a partir de 2015, reestruturando e treinando sua equipe gerencial com vistas ao entendimento da dinâmica do setor de saúde, seja público ou privado”, diz. Buscando clientes que não apenas do SUS, o Hospital da Baleia lançou o produto “Baleia é para você”, no qual comercializa procedimentos hospitalares de pequena e média complexidade, acessíveis à população afetada pelo baixo desempenho do sistema público e pela crise econômica.