Na falta de uma ação efetiva do governo federal contra as dificuldades que ameaçam interromper a vacinação contra a covid-19 no Brasil, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e os governadores fizeram, ontem, movimentos para tentar destravar a importação de imunizantes e a chegada de cargas de princípio ativo para que os fármacos possam ser fabricados no país. Enquanto o deputado se reunia com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, para contornar o atraso da chegada do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) para os imunizantes replicados pelo Instituto Butantan e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os representantes dos estados protocolaram ofício ao presidente Jair Bolsonaro cobrando um diálogo diplomático com o governo de Pequim para assegurar a importação dos insumos para a produção dos fármacos.

Maia se reuniu com o representante diplomático da China e, após o encontro, afirmou que o embaixador trabalha junto ao governo chinês para liberar os insumos para a fabricação das vacinas CoronaVac e Oxford/Astrazeneca no Brasil. Ainda de acordo com o parlamentar, Yang Wanming reiterou que o atraso no envio dos produtos ocorre por problemas técnicos, e não tem relação com os ataques promovidos por setores do governo e por bolsonaristas à China. “É incrível como a questão ideológica com alguns prevalece em relação à importância de salvar vidas”, disparou Maia, ao sair do encontro.

Mas, em reunião com deputados, no fim da tarde de ontem, o chanceler Ernesto Araújo afirmou que o Ministério das Relações Exteriores não identificou nenhum problema político ou diplomático com Pequim. Justificou que o mal-estar com a China faz parte da “liberdade de expressão” e garantiu que o governo mantém contato com dirigentes chineses e indianos. Mas não deu prazo para a chegada dos insumos.

Ofício

Numa segunda iniciativa para fazer o governo federal intensificar seus esforços para a chegada do IFA ao país, o ofício dos governadores também pede que o Executivo se movimente para negociar com a Índia, de onde o Brasil aguarda dois milhões de doses da vacina de Oxford/Astrazeneca, produzida pelo Instituto Serum. E frisa que deve ser avaliada a “possibilidade de estabelecimento de diálogo diplomático com os governos dos países provedores dos referidos insumos, sobretudo China e Índia, para assegurar a continuidade do processo de imunização no país”.

“A carta é um apelo, em sintonia com o povo brasileiro, para que o presidente da República, com toda a diplomacia brasileira, governadores, ex-presidentes, quem puder ajudar, para que a gente possa ter esse diálogo com o governo da China, da Índia, da Rússia, para garantir que seja cumprido o cronograma para a entrega do IFA”, cobrou o governador do Piauí, Wellington Dias, que coordena, no Fórum de Governadores, a temática Estratégia Para a Vacina Contra a Covid-19.

Critica à paralisia

A médica pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcomo considerou, ontem, “absolutamente inaceitável” a falta das doses de vacinas contra a covid-19 no país e afirmou que as gestões diplomáticas do Brasil “fracassaram” nas negociações pela obtenção do imunizante na China e na Índia. O desabafo foi durante a cerimônia de entrega do prêmio São Sebastião, com o qual foi agraciada, no Rio de Janeiro.

“A incompetência diplomática do Brasil não permite que cada um dos senhores aqui presentes, suas famílias e aqueles que vocês amam, esteja amanhã ou nos próximos meses de acordo com o cronograma elaborado recebendo a única solução que há para uma doença como a covid-19”, disse, emocionada.

Margareth classificou a insuficiência de vacinas como “injustificável”, sobretudo para uma das principais economias do mundo, como ela fez questão de lembrar. “É hora de a sociedade brasileira mostrar realmente o que eu tenho tentado chamar atenção como médica e cidadã de consciência cívica: é absolutamente inaceitável que, neste momento, no Brasil, acabamos de receber a notícia de que as vacinas não virão da China e não virão da Índia”, disse, em vídeo que vem sendo compartilhado nas redes sociais.

A Índia deixou o Brasil fora da lista de prioridades de exportação da vacina produzida pelo Instituto Serum, que replica a de Oxford/AstraZeneca. E a China ainda não libertou o princípio ativo para que mais doses da CoronaVac sejam reproduzidas, no Brasil, pelo Instituto Butantan.

Doses são poucas e tem quem fure a fila

Com o começo da distribuição das poucas doses da vacina contra a covid-19 disponíveis no Brasil, começam a surgir relatos de pessoas que não pertencem aos grupos prioritários que furaram a fila e conseguiram se imunizar. Desde ontem, há denúncias de que isso aconteceu no Amazonas, em Pernambuco e em Sergipe.

No caso amazonense, o Tribunal de Contas do estado solicitou ao governo de Wilson Lima e à prefeitura de Manaus que, em 24 horas, dê a lista com os nomes das pessoas que foram vacinadas e os critérios utilizados. No ofício, ele exige o controle dos imunizados, com a respectiva qualificação, e a relação de quem ainda será vacinado, incluindo os nomes dos profissionais de saúde e suas lotações.

Em Pernambuco, o Ministério Público estadual investiga um vídeo em que a secretária de Saúde de Jupi, Maria Nadir Ferro, e um fotógrafo da prefeitura teriam recebido a vacina sem que fizessem parte do grupo prioritário. Os dois foram exonerados.

Em Sergipe, outro vídeo mostra o prefeito do município de Itabi, Júnior de Amynthas se vacinando. Em nota, a Secretaria de Saúde da cidade informou que ele recebeu o fármaco “em um ato de demonstração de segurança, legitimidade e eficácia da vacina, para incentivar a população itabaiense a vacinar-se”.

Enquanto isso, o Conselho Nacional de Saúde enviou, na última terça-feira, um ofício ao Ministério da Saúde solicitando a revogação de informes, orientações e protocolos que incentivem o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19. Apesar de o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, ter afirmado que nunca autorizou a indicação dos remédios, ele estava à frente da pasta, como interino, quando a Nota Informativa 17/20, que recomenda o tratamento, foi publicada pela pasta.

No documento enviado ao ministério, o conselho solicita que Pazuello revogue qualquer instrumento que possa indicar tratamento precoce com medicamentos ineficazes.