Hospitais privados do país registraram uma queda média de 27% no número total de internações no segundo bimestre (março e abril) de 2020, em comparação ao mesmo período de 2019. Isso é um reflexo da pandemia da covid-19, que afugentou pacientes em risco de morte de emergências e atendimentos.

Os dados são de um levantamento da Ahahp (Associação Nacional de Hospitais Privados), que publica hoje o seu Observatório 2020 (um anuário que reúne indicadores de 119 instituições privadas em todo o Brasil), com um balanço dos atendimentos de 2019. Entretanto, por conta da pandemia do novo coronavírus, a entidade fez um levantamento prévio dos números do primeiro quadrimestre e os repassou com exclusividade ao UOL.

“O ano de 2020 acabou em fevereiro; em março começou um outro ano”, resume Ary Ribeiro, editor do Observatório e CEO do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo. “Especialmente a partir da segunda quinzena de março, estamos vivendo uma dinâmica totalmente diferente”, completa.

Se levarmos em conta os quatro primeiros meses deste ano, a queda de internações chega a 18%. Ocorreu alta somente no número de internações por doenças infecciosas (onde está inclusa a covid-19): um aumento de 28% em relação a 2019. “Esse dado é uma amostragem de hospitais que nos responderam, mas esse é o quadro em quase todo local”, explica Ribeiro.

A preocupação dos hospitais está na redução da busca por tratamento para problemas de saúde que não podem esperar e não apresentaram redução de casos mesmo com a quarentena. Nesse grupo, estão doenças crônicas e problemas agudos que necessitam de pronto atendimento.

Emergências esvaziadas

A busca pelos atendimentos de emergência registrou queda de 40% no primeiro quadrimestre, em comparação a 2019.

“Essa redução foi muito acentuada, o que em parte é adequado, pois estamos lidando com uma situação de percepção de risco e medo. Mas é importante chamar a atenção para o fato de ser inadequado, se você levar em conta as condições em que a população não pode deixar de ir a um pronto-socorro”, explica Ribeiro.

Segundo os dados da Ahahp, chama a atenção a queda nos atendimentos por câncer, que tiveram 23% menos internações nesse primeiro quadrimestre. Já no caso de problemas do aparelho circulatório (como infarto), as internações caíram 21%.

“Não é razoável que a necessidade desses atendimentos tenha caído assim. Existem várias publicações e estudos atestando a redução da ida das pessoas ao pronto-socorro. É preciso passar essa informação para as pessoas que precisam de cuidados continuados buscarem os hospitais, que se preparam para ter fluxos diferenciados. São dois hospitais dentro de um só, esperando esse fluxo com toda segurança”, comenta o CEO do Sabará Hospital Infantil, ressaltando o trabalho dos hospitais ao separar pacientes com covid-19 dos demais.

Uma das maiores preocupações é em relação às consequências geradas no caso de exames para detectar neoplasias. “Está havendo adiamento de diagnóstico de cânceres, o que significa que pessoas não serão tratadas no tempo correto. E em câncer isso é fundamental para o prognóstico. Isso é uma preocupação sanitária, e o sistema de saúde suplementar na maioria dos estados tem condições de atender adequadamente”, alerta.

Análise regionalizada dos hospitais

Ribeiro faz uma ressalva: é necessário fazer análises regionalizadas da situação dos hospitais, já que há locais em que toda rede de saúde está sobrecarregada em decorrência da pandemia de covid-19.

“É preciso ter muito equilíbrio na utilização dos recursos. Na análise para o serviço suplementar, percebemos que a situação já está estabilizada em muitos locais. Não há evidência, pelas últimas semanas, de que uma crescente demanda vá colocar o sistema complementar em risco. Isso faz com que o sistema tenha capacidade de absorver os serviços que não podem ser postergados”, diz o editor da pesquisa Observatório 2020.

Por fim, ele pondera que esse estudo não tem como objetivo estimular a ida de pessoas aos hospitais. “É para esclarecer que quem tem problemas tem de ir. Essa queda de demanda não é benéfica ao sistema de saúde. A onda de demanda para covid-19 trouxe uma outra, de represamento de condições de atendimento de doenças crônicas que podem agudizar, sem contar os procedimentos eletivos que também causam sofrimento às pessoas. Isso precisa ser discutido com toda seriedade”, finaliza Ribeiro.