Só é possível mudar o sistema de remuneração dos serviços de saúde com a alteração de um modelo em que quanto mais se gasta, mais se ganha, e que privilegia o atendimento imediato em detrimento do cuidado contínuo, além de não pensar a saúde de forma integral.

Essa é a conclusão da mesa sobre novos modelos de assistência e remuneração que encerrou a programação do 3º Fórum A Saúde do Brasil, realizado pela Folha, Interfarma e Unimed.

“Estamos discutindo como fazer boa medicina para promover menos desgraças”, disse Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Para ele, um novo modelo, voltado a promoção, proteção e prevenção, só é possível com uma nova divisão do trabalho médico.

“O atendimento domiciliar não está dando certo aqui porque se tornou uma batalha corporativista: o médico tem que ser o responsável por tudo, mas há coisas que podem ser assumidas por enfermeiros, cuidadores”, afirmou o professor. Uma nova divisão do trabalho é, para ele, uma forma não só de repensar o modelo de remuneração, mas de acolher melhor a população.

A criação de novos modelos exige uma visão e organização sistêmicas, em que as diversas áreas ajam de forma integrada. “Atualmente, o atendimento dos pacientes é feito de forma fragmentada, criando redundância, desperdícios e custos”, afirma Walter Cintra Ferreira Junior, coordenador da especialização em administração hospitalar e de sistemas de saúde da FGV-SP.

Um dos nós da assistência, segundo Ferreira Junior, é o fato de o modelo estar organizado em cima de hospitais, que se tornam a única porta de entrada no sistema de saúde.

Com um sistema de remuneração que privilegia os gastos (com médicos, exames, internações, procedimentos), o custo da saúde tende a ficar insustentável.

“O paciente também precisa ter acesso a informações para dar valor a outros modelos de financiamento, que privilegiam os resultados, não os gastos, não a tecnologia de alto custo”, disse o professor da FGV.

MODELO ANTIGO

O modelo atual foi organizado há pelo menos 60 anos, segundo Martha Oliveira, diretora de Desenvolvimento da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), quando as características da população eram muito diferentes.

“O sistema de saúde é como uma grande sala de emergência aberta”, diz Oliveira. Esse tipo de assistência não responde mais às necessidades de um país com população que está envelhecendo e onde as doenças crônicas crescem e as infecciosas diminuem.

No diagnóstico de Oliveira, para uma mudança de modelo, é preciso acesso à informação, discussão sobre como medir e remunerar a qualidade dos serviços, e não a quantidade.

“O modelo atual tem alto custo e baixa eficiência”, afirmou a diretora da ANS.

Discutir a remuneração dos médicos (“Muitos consideram isso uma heresia”, disse Vecina Neto) é outra consequência da mudança no modelo de atendimento.

“Não vou discutir se o médico ganha muito ou pouco, mas como está ganhando. É pelo maior volume de procedimentos, não para cuidar do paciente”, disse Oliveira.

As mudanças só virão se houver disposição da sociedade. “A sociedade quer algo diferente sem pagar mais, precisa ter acesso às informações para pode saber o quê e como mudar”, afirmou Vecina Neto.

Já há algum movimento em direção a mudanças, contou Oliveira, citando os grupos de trabalho formados pela ANS e pelas operadoras, como os projetos Parto Adequado, para estimular o parto normal, e Idoso Bem Cuidado, que prioriza a assistência contínua no lugar da emergencial.

“As mudanças na saúde suplementar estão começando porque os consumidores não estão conseguindo pagar. Quando aperta no bolso tem que mudar. No SUS, a questão é mais complexa. Temos que discutir o que é possível dar, para quem dar e de que maneira”, disse Vecina Neto.