Líder no mercado de planos de saúde com quatro milhões de beneficiários, a Amil quer impor aos hospitais um novo modelo de remuneração. Segundo o presidente do UnitedHealth Group, multinacional que responde pela operadora, não se pode “continuar encaminhando paciente para quem está a fim de desperdiçar dinheiro.” Ele defendeu o descredenciamento de hospitais, entre eles os da Rede D’Or, como forma de proporcionar “uma medicina por preço justo”, porém admitiu ter “consciência do dissabor que isso vai causar”.

– Mas não podemos ser reféns de qualquer prestador de saúde que não seja adequado – afirmou.

O descredenciamento da Rede D’Or pegou todos de surpresa. O que aconteceu?

– Não é nada com a Rede D’Or ,é com hospitais que tenham práticas questionáveis. Hoje, 30% do que pagamos já são por modelos diferentes da fee for services (remuneração por serviço prestado). As pessoas que compram plano de saúde querem liberdade de escolher seus hospitais, e não vamos coibir isso. Mas vamos proteger as pessoas para que tenham uma medicina por preço justo. Porque é isso que elas querem de nós. Quem estiver disposto a ter uma medicina de boa qualidade vai continuar conosco.

Outros descredenciamentos podem voltar a acontecer?

– Sim. Não é nada com uma rede ou um grupo. É que, para essa rede, é conveniente dizer que é com eles. Nossa questão é com o sistema de saúde.

Quais hospitais, além da Rede D’Or, serão descredenciados?

– Ao todo serão 17. Mas vamos conversar com todos. Nada impede que, adotando-se uma medicina de valor, voltemos a credenciá-los. O que não pode é continuar encaminhando paciente para quem está a fim de desperdiçar dinheiro. Não o nosso, mas o do paciente. A única coisa que a gente quer é boas práticas. O setor de saúde é um dos que têm mais baixo desempenho em eficiência. Queremos levar isso para o quadrante nobre.

A mudança está ligada à necessidade de redução de custos no segmento?

– A pressão de custo é consequência de uma medicina de desperdício. A questão é que encontramos resistências à mudança. Há grupos nos quais já foram identificados, por exemplo, 8% de internações e 20% de terapias intensivas acima da média daquelas remuneradas pelo novo modelo. Isso é questionável.

Trata-se da Rede D’Or?

– Não, é em relação a um grupo de hospitais. É cômodo para alguns grupos não reconhecer o problema e transformá-lo num debate de natureza econômica. Mas não é. Minha briga é por um sistema de saúde transparente, com boas práticas, pautado pela medicina baseada em evidências. Existem organizações que estão dispostas a conversar sobre isso. Para outras, é mais cômodo continuar cultivando o desperdício.

Mas o setor se queixa da pressão dos custos…

– É lógico que o custo é um dos pontos que estão pegando, mas não é ele que a gente está questionando. É a medicina de qualidade. Tem gente que não quer. O que eu posso fazer?

Já dá para medir o efeito dessas medidas no custo?

– Os hospitais representam 58% do custo da saúde. Aqueles que adotam medicina baseada em evidência têm custo inferior. Não tenho um número agora, mas os reajustes serão menores.

E o reflexo para o beneficiário?

– Temos consciência do dissabor que isso vai causar. Mas não podemos ser reféns de qualquer prestador de saúde que não seja adequado. Autorregulação também é papel nosso, e não podemos permitir desperdício.

Como vai funcionar para o beneficiário?

– Vamos ampliar o atendimento em outros hospitais, orientar as pessoas. A única coisa que a gente não vai deixar acontecer é prejudicar o usuário.