Todo fim de mês, o empresário e executivo Fernando Parrillo, sócio e CEO da Prevent Senior, maior operadora de saúde especializada em clientes da terceira idade no País, se impressiona com os números da companhia. Não apenas com as cifras de faturamento e lucro, mas com a planilha que mostra o perfil dos 451 mil clientes. Em setembro, a empresa superou a marca de 250 pessoas com mais de um século de vida, além de 12 mil beneficiários na faixa etária entre 90 e 100 anos — grupo que, historicamente, é motivo de dor de cabeça para os planos de saúde e que gera os custos mais altos em procedimentos. “Temos uma visão distinta sobre o público de mais idade. Uma pessoa que chega aos 80 anos é saudável, e se busca um plano de saúde é porque quer viver mais e melhor. Queremos tê-la como cliente”, afirma Parrillo. “Temos de inverter o conceito. A medicina não deve ser uma ciência voltada só para a cura, mas de prevenção ao surgimento de enfermidades.”

Sob a ótica dos negócios, a equação de Parrillo também parece fazer sentido. A Prevent Senior mantém programas de incentivo para aumentar a frequência de consultas e exames, buscando diagnosticar problemas em seus estágios iniciais. Com isso, segundo ele, a companhia tem conseguido reduzir de 30% a 40% as despesas com a cobertura de procedimentos de alta complexidade — e, evidentemente, mais custosos. “Controlar o colesterol é barato. Colocar um stent (prótese para evitar a obstrução dos vasos sanguíneos) é caro. Por isso, aumentar a atenção à prevenção é o melhor a se fazer.”

A estratégia da Prevent Senior, a julgar pelos números, tem garantido a saúde financeira e a sustentabilidade dos negócios. Neste ano, a companhia vai faturar R$ 3,5 bilhões, alta de 17% na comparação com 2018. Mais: um plano de investimento de R$ 500 milhões em dois anos — 80% com recursos próprios e 20% com bancos e investidores – vai aumentar a capacidade de atendimento para 750 mil pessoas, alta de 66% em relação ao número atual, com a abertura de novas unidades em Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, além do lançamento de uma operação nos Estados Unidos no ano que vem. “Se estamos conseguindo crescer e rentabilizar, oferecendo planos de saúde pela metade do preço da média da concorrência, é porque existem alternativas de modelos de operação para as empresas do setor”, afirma Parrillo. “A ideia é reduzir ainda mais os custos.”

Os estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) apontam que a população com mais de 50 anos no Brasil crescerá a um ritmo chinês nas próximas décadas, criando um imenso mercado consumidor, que já movimenta R$ 1,8 trilhão por ano e responde por 42% do consumo nacional. A participação de pessoas com mais de 50 anos na sociedade passará dos atuais 25% — com 54 milhões de cidadãos — para 31,1% daqui a dez anos, e 37,4% em 2040. Se hoje o contingente que compõe o chamado “silver economy” ou “grey power” (a força dos grisalhos) já é, comparativamente, maior do que a população da Espanha, o aumento criará novas oportunidades de negócios para as empresas. O economista Marcos Cavalcanti, da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que o fim do bônus demográfico (quando há mais pessoas na ativa do que aposentadas) não representa um ônus demográfico. “Significa que pessoas com mais experiência, patrimônio e capacidade de investimento serão mais representativos dentro da sociedade”, afirma.

Neste contexto de maior preocupação com a qualidade de vida da população na maturidade é que têm surgido empresas como o Residencial Santa Cruz, na zona Sul de São Paulo, um abrigo para pessoas idosas, com mensalidades de R$ 9,6 mil, para hospedagem individual, a R$ 18 mil, para suítes para casais. Segundo Priscila Kim, administradora do empreendimento, a demanda está crescendo mês a mês. Atualmente, com 75% dos 72 leitos ocupados, ela projeta alcançar 100% já em 2020. “Temos clientes de 70 a 101 anos, com as mais diversas necessidades. Um dos casais que vivem aqui, o marido sai para trabalhar todos os dias, enquanto a esposa, com Alzheimer, recebe todo o suporte necessário por nossa equipe com mais de 90 funcionários”, diz Priscila. O residencial recebeu investimento de R$ 32 milhões e, neste ano, vai contabilizar receita de R$ 5 milhões.

As oportunidades de negócios surgem também para quem não quer sair de casa — ou não pode pagar por serviços como o do Residencial Santa Cruz. A rede de franquias Home Angels nasceu com a proposta de oferecer serviço de cuidadores com foco em idosos. O sócio-fundador, Artur Hipólito, avalia que o mercado voltado ao público mais maduro tende a se diversificar. “As empresas das áreas de turismo, de saúde, de vestuário e de automóveis, entre muitos outros, estão começando a se atentar para esse grupo”, diz. “Grande parte do PIB per capita está nas mãos dos idosos. Meu pai tem 88 anos, é um consumidor ativo e até dirige.” Fundada em 2009, em Campinas, no interior paulista, a Home Angels mantém 105 unidades em todo o País, 15 mil clientes e faturamento de R$ 85 milhões neste ano. Cada unidade franqueada, segundo Hipólito, gera receita de R$ 90 mil por mês, oferecendo profissionais qualificados para cuidar de idosos, a um preço médio de R$ 15 por hora. “O tempo de permanência varia. Pode ser de 6 horas, 12 horas, 24 horas, esporadicamente ou diariamente. Tudo depende da necessidade.”

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, empresa que tem realizado pesquisas específicas para esse segmento (veja os gráficos), ressalta que o grupo dos 50+ já é o maior mercado consumidor do Brasil e não vai parar de crescer. Se fosse um país, esses consumidores seriam a terceira maior economia da América Latina, atrás apenas do próprio Brasil e do México. “É natural que as empresas do ramo da saúde enxerguem primeiramente as oportunidades porque se trata de demanda até então não atendida. Mas a tendência é de que o rol de empresas e segmentos se diversifique para atender a terceira idade”, afirma Meirelles.

Para as empresas explorarem esse nicho será necessária, segundo ele, uma mudança drástica na cultura corporativa. “Nos últimos 20 anos sofremos com a ditadura dos millenials. Todas as empresas queriam desenvolver coisas para jovens. As expressões ‘velho’ e ‘idoso’ ficaram associadas a coisas antigas e defasadas. Isso terá de ser revisto”, diz Meirelles. Essa mudança de cultura deve ocorrer logo por razões que o próprio mercado explica. Ele compara a situação atual com a época em que a Classe C emergiu. Não havia nas companhias departamentos de marketing oriundos dessa classe emergente o que dificultava a criação de estratégias. “Tão logo aquele mercado foi compreendido, passou a ser explorado adequadamente. Se o mercado conseguiu se adequar à Classe C, também o fará com o público 50+. Ninguém rasga dinheiro. Haverá pressão por metas, vendas e resultados. Com isso, as mudanças virão.”]

Essa mudança já é uma realidade em empresas como a NotreDame Intermédica. De olho no mercado formado por pessoas com 50 anos ou mais, a companhia acaba de lançar um plano de saúde específico para essa faixa etária: o NotreLife 50+. Por enquanto, o produto está disponível apenas em Jundiaí e Sorocaba, no interior de São Paulo, onde a empresa já estruturou unidades de atendimento novas e exclusivas para os beneficiários. O plano marca uma guinada na estratégia de vendas da empresa, antes focada em produtos corporativos. A meta, agora, é seduzir idosos para os planos individuais, com mensalidades a partir de R$ 500. “A inversão da pirâmide etária abre um potencial enorme para se trabalhar com esse público, principalmente porque, quanto mais a idade avança, menor a possibilidade de ter um vínculo empregatício, o que inviabiliza obter um plano corporativo”, diz Irlau Machado Filho, presidente do grupo NotreDame Intermédica. “O público mais maduro irá dar sustentabilidade ao produto. Inclusive, vemos oportunidade também de ofertá-lo para os atuais beneficiários que vierem a se aposentar e não tenham mais o vínculo com as empresas.”

Na área da saúde e bem-estar, as academias também estão surfando com o envelhecimento da população. Algumas delas, como a Ecofit, já surgiram com foco nesse público. Outras, como Runner e Bio Ritmo, criaram programas específicos para o novo público. A vantagem em relação a empresas de outros segmentos é que as academias não precisam fazer investimentos extras, pois usam os mesmos equipamentos. De acordo com o fundador e diretor da Ecofit, Toni Gandra, a ideia era que o empreendimento pudesse atender todos os membros da família, do neto ao vovô. “Já inauguramos dentro desse conceito de aulas especiais para alunos de até 90 anos”, afirma Gandra. Atualmente, a Ecofit tem 4,5 mil alunos, sendo que 12% têm mais de 65 anos. “O objetivo é dobrar esse percentual em quatro anos.” Em 2021 e 2022, a empresa vai investir R$ 10 milhões para abrir duas unidades no mesmo conceito.

Da mesma forma que muitos buscam exercitar o corpo, existe quem busca exercitar o cérebro. É o que fazem os alunos com mais de 50 anos que se matricularam na escola Supera, especializada em estimular a criatividade, a concentração e o raciocínio lógico — ou seja, fazer uma verdadeira ginástica cerebral. Hoje, alunos com mais de 60 anos representam 48% dos matriculados na instituição, segundo o fundador e CEO, Antonio Carlos Guarini Perpétuo, dono da empresa. “O foco inicial eram os jovens, mas o plano de negócios previa a entrada de alunos de todas as faixas etárias, principalmente os mais maduros. O que eu não pude prever era o quão rápido isso iria acontecer. Então, desenvolvemos material específico para eles.”

Segundo Perpétuo, desde a fundação, a escola já formou mais de 150 mil alunos. Atualmente tem 35 mil estudantes matriculados em 400 unidades localizadas em todos os estados do País. Pessoas acima dos 40 anos representam 62% do total e a faixa etária acima dos 60 tem crescido, em média, 5% ao ano. O executivo não revela cifras, mas garante que a empresa está crescendo a um ritmo de 30% ao ano. “No caso dos idosos, não se trata apenas de prevenir doenças que atingem o cérebro, mas também manter a memória ativa, resgatar o convívio social e a autoestima, o que muda a vida em família.”