A digitalização da economia, processo acelerado pela pandemia, estimula o surgimento de empresas na área de saúde e novos modelos de negócios e serviços. Em dois anos, entre 2018 e 2020, o número das chamadas “healthtechs”, empresas de saúde baseadas em plataformas tecnológicas, mais do que dobrou. Passou de 248 companhias para 542, segundo levantamento da comunidade de startups Distrito. Em agosto deste ano, havia 919 startups no setor, número que passou a 945 no mês seguinte.

A maioria das empresas são de gestão e acesso à saúde e telemedicina. Empregam 18.849 pessoas, com investimentos de US$ 466,3 milhões desde 2018, de acordo com a Distrito. O avanço abre a possibilidade de ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, mas requer regulamentação e também desperta preocupações, como destaca a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Reinaldo Guimarães, presidente da entidade, diz que avanços tecnológicos que melhorem a vida dos pacientes ou facilitem o contato de profissionais e sistemas de saúde com a demanda são sempre bem-vindos, mas há ressalvas em relação à telemedicina. “A principal dimensão a ser analisada é a ampliação do acesso e da qualidade aos cuidados de saúde. Se a gente está tratando de desigualdade, a incorporação das tecnologias exige que o Sistema Único de Saúde [SUS] esteja no centro do assunto”, disse Guimarães, cuja organização apoia o ensino, a pesquisa e a prestação de serviços em saúde pública.

Para Gustavo Araújo, diretor da Distrito, a conectividade traz mudanças na relação entre médico e paciente, com potencial para baratear custos e aumentar a parcela da população que usa serviços privados de medicina: “Estamos no começo de um processo que vai ser muito grande, com várias frentes. Uma delas, a telemedicina, vai revolucionar a relação entre médico e paciente, que vai ser cada vez mais híbrida, por meio, por exemplo, de teleconsultas e telediagnósticos”, disse Araújo.

No ano passado, uma lei autorizou o exercício de práticas de telemedicina, embora apenas enquanto durar a pandemia. Um projeto de lei para regulamentar o tema de forma definitiva está em discussão na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também debate a questão e prevê publicar resoluções sobre o assunto.

Segundo o diretor da Distrito, o surgimento de novos modelos de negócios vai aumentar o uso da saúde privada, assim como a possibilidade de levar especialistas para cidades com falta de profissionais. “Dois terços da população brasileira, que depende da saúde pública, será incluída em uma saúde de melhor qualidade por meio de plataformas, convênios digitais, ‘marketplaces’ de saúde, serviços mais baratos, telemedicina e cartões. A população vai usar um misto de saúde privada e pública.”

Criada pelos pernambucanos Sérgio Bivar e Antonino Coelho, a “heatlhtech” Exmed é uma das novas empresas do setor. A operação funciona por meio de uma conta digital. Os usuários fazem aportes mensais – para uma pessoa de 30 anos, o valor mínimo é de R$ 84,96 – e os recursos são usados para pagamento de consultas e exames em empresas parceiras e de um pacote de seguros, que cobre internações hospitalares até R$ 200 mil e inclui seguro de vida. Se os valores depositados forem maiores, parte é investido em aplicações com rendimentos parecidos com o CDI, na opção mais conservadora. Por enquanto, o serviço só está disponível no Recife, mas, em breve, será expandido para São Paulo.

Ex-médico dos Bombeiros, o carioca Vander Corteze, criador da Beep Saúde, que oferece serviços de vacinas e exames domiciliares, compara o que ocorre no setor ao que aconteceu no passado com o comércio eletrônico. Na esteira da digitalização, ele vê os negócios prosperarem. A expectativa da Beep é superar R$ 100 milhões em faturamento em 2021. No ano passado, esse valor foi de R$ 50 milhões e, em 2019, de R$ 20 milhões.

“A pandemia é a prova de que a gente já tinha tecnologia para digitalizar a jornada do paciente. É uma tendência que não vai retroceder”, afirmou Corteze. Segundo ele, o fato da Beep não ter unidades físicas para análise e realização de exames e vacinas faz com que o preço dos serviços seja competitivo. “Somos também uma empresa de logística. Quanto mais pessoal atendemos, mais barato ficam os custos de deslocamentos.”

A empresa, que está em cerca de 100 cidades do Rio de Janeiro, Distrito Federal, Paraná e São Paulo, vai entrar no Espírito Santo. No futuro, a Beep pretende oferecer exames oftalmológicos e infusão de medicamentos.

A tecnologia também está proporcionando a chegada de novos equipamentos ao mercado. A empresa de aparelhos auditivos Demant, que abriu este ano uma loja em Ipanema, no Rio, tem parceria com a Philips para produzir equipamentos. Entre os lançamentos, estão aparelhos conectados ao celular, que permitem ao paciente fazer uma graduação de volume, facilitando a adaptação.

Outra novidade é um aplicativo de teleconsulta, por meio do qual ajustes podem ser feitos à distância pelo fonoaudiólogo. Alguns aparelhos também suportam transmissão de streaming do celular diretamente para a prótese. “A projeção para os próximos anos era essa, mas a pandemia acabou acelerando. Estamos vivendo o futuro no presente”, afirmou o fonoaudiólogo Marcus Vinicius Silva, especialista em treinamento na Demant.

Outra healthtech do setor é a V-Lab, que desenvolveu tecnologia para hospitais gravarem ultrassonografias na nuvem ou fazer transmissão ao vivo do procedimento. De acordo com a V-Lab, mais de 80% das clínicas de diagnóstico por imagem no Brasil não gravam os exames de ultrassom obstétrico em vídeo. Dos 20% que gravam, mais de 70% gravam em uma mídia obsoleta, o DVD.

Com o V-Baby, são gravadas ultrassonografias obstétricas, enquanto o V-Telessaúde abrange outros tipos de ultrassonografia. O serviço possibilita uma melhor gestão dos recursos na área de saúde em pequenas e médias cidades, reduzindo a necessidade de encaminhamento desnecessário de pacientes de um município para o outro. Além disso, possibilita uma segunda opinião médica em casos específicos.