Recente pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) em parceria com o Ibope mostra que 80% dos possuidores de planos de saúde privados estão satisfeitos com eles. Mais do que isso, estão satisfeitos com os planos que têm e não pretendem sair deles. Além disso, 88% dos entrevistados indicariam seus planos para parentes e amigos.

Na mesma linha, outra pesquisa põe os planos de saúde privados como terceiro sonho de consumo dos brasileiros. Sonho que é realidade para um quarto da população, justamente os que consideram que os planos de saúde oferecem atendimento eficiente.

Na contramão desses dados, os processos judiciais contra os reajustes de preço dos planos de saúde cresceram várias vezes, saltando de cerca de 200, alguns anos atrás, para mais de 2 mil, no primeiro semestre deste ano.

Visto assim, sem uma análise mais acurada, é um aumento impressionante, mas que, colocado dentro do contexto, perde muito do impacto.

O Brasil tem mais ou menos 48 milhões de segurados de planos de saúde privados. A maioria deles, por meio de planos coletivos, os quais permitem o reajuste do preço com base na sinistralidade da operadora e da massa especificamente segurada.

Esses reajustes têm ficado muito acima da inflação – isso acontece em todo o mundo – e é aí que a vaca vai para o brejo. Os reajustes dos custos médicos e hospitalares não estão diretamente atrelados apenas à inflação da economia. Eles estão sujeitos a outras variáveis, como os preços praticados pela indústria farmacêutica e pelos fabricantes de equipamentos.

E ingenuidade imaginar que um tomógrafo de alta resolução ou um aparelho de ressonância magnética de última geração vai custar a mesma coisa que uma máquina de abreugrafia ou outros equipamentos semelhantes de versões anteriores.

Reajuste de preços dos planos de saúde é um assunto muito sério e exige uma revisão profunda das regras do setor

No Brasil, o quadro fica pior ainda porque temos a variação do dólar como fator de agravação do quadro, na medida que mais de 90% dos insumos e equipamentos usados pelo setor de saúde são importados. Apesar disso, num universo de mais de 48 milhões de segurados, foram distribuídos pouco menos de três mil processos.

Mas se, em termos proporcionais, a conta é baixa, o reajuste dos preços é um problema muito sério, até porque, com a quantidade de desempregados e subempregados do País e com a renda per capita abaixo de três mil reais por mês, é complicado se falar em reajuste de 17% em um item de primeira necessidade, como é o caso dos planos de saúde.

O ideal seria a profunda revisão das regras em vigor para o setor. A Lei dos Planos de Saúde Privados, de 1998, é ruim, sempre foi ruim, e os remendos possíveis foram feitos sem que a essência do problema tenha sido modificada. Isso só será possível se os planos de saúde puderem ter conceito básico diverso do atual.

Como essa possibilidade não faz parte do universo legislativo brasileiro, é indispensável todos os envolvidos no tema concordarem em fazer sua parte para evitar o agravamento do quadro.

Ai entram as operadoras dos planos de saúde, que precisam melhorar seus controles para evitar fraudes e desperdícios; os hospitais privados, que não apresentam suas contas com a transparência necessária; os médicos e prestadores de serviços, que nem sempre entendem que não dá para cobrar o que querem porque há uma limitação intransponível, que é a capacidade de pagamento da sociedade.

Alguns especialistas falam que o custo operacional do setor está em 80%. Se somarmos a ele 15% de despesas administrativas e 10% de despesas comerciais – o que é baixo -, com a taxa de juros atual, a conta não fecha.

Como nenhuma empresa consegue sobreviver por muito tempo gastando mais do que fatura, os nós do setor, dentro do que é possível fazer, precisam ser equacionados rapidamente, até para que, quando a retomada do desenvolvimento se consolidar, os brasileiros que retornarão ou ingressarão nos planos de saúde privados tenham um produto mais amigável, não apenas no atendimento, mas também no momento do custeio.