O médico e escritor americano Atul Gawante transformou-se em referencia na área de saúde pelas propostas para reduzir riscos nas cirurgias e eliminar desperdícios. Há algumas semanas, Gawande foi contratado para ser o principal executivo da empresa de saúde que três grandes companhias – Amazon, JPMorgan Chase e Berkshire Hathaway – decidiram criar para cortar custos com planos de saúde de seus mais de 1 milhão de funcionários nos EUA.

A decisão de contratar o CEO antes mesmo de dar um nome à nova empresa demonstra o senso de urgência do trio para dar uma guinada no modelo tradicional de gestão de saúde no setor coorporativo. O desafio do novo posto exigirá intensa dedicação de Gawande, que, além de cirurgião e escritor, é professor de saúde pública em Harvard. Para facilitar as coisas, a nova empresa de saúde terá sede em Boston, onde ele mora.

Essa não é a única iniciativa de destaque nos Estados Unidos. Há três meses, a General Motors fechou acordo com uma rede de seis hospitais de Detroit e região para atender seus empregados. Em geral, no modelo convencional, que envolve seguradoras, os hospitais são remunerados pela quantidade de atendimentos, o que, na visão de analistas, estimula o desperdício.

A discussão começa a ganhar corpo também no Brasil, um dos países com maior índice de aumento de custos de saúde.  Estudo encaminhado aos presenciáveis pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que o Brasil só perde para o Equador.

A amostra com 60 países, feita com base nos dados da consultoria internacional Willis Towers Watson, destaca o Equador com 12,3% na média anual de aumento de custos com assistência médica entre 2016 e 2018. No segundo lugar, o Brasil ficou com 10,9%, seguido por Canadá (10,7%) e Romênia (10,6%). A posição brasileira no ranking é distante de vizinhos como Chile, com 3,6%, e Colômbia (3,7%).

Ao contrário do que ocorre nos planos de saúde individuais ou familiares, os reajustes para planos coletivos empresariais não são regulados pela Agência Nacional de Saúde (ANS). Seguem a variação do chamado custo médico hospitalar (VCMH). O estudo da CNI indica que nos últimos anos o VCMH tem ultrapassado em muito a inflação medica pelo IPCA. Entre 2008 e 2016 o VCMH subiu 238%. No mesmo período, o IPCA aumentou 75%. No ano passado, o IPCA fechou em 2,95%, e a variação do custo médico hospitalar, em 19,20%.

Uma das mais fortes razões dos aumentos de custos, segundos analistas, vem dos desperdícios. Pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, com base em informações encaminhadas pelas operados à ANS, comparou a quantidade de alguns exames complexo realizados no Brasil com a média mundial. Em 2015, foram feitas no país 132 ressonâncias magnéticas para cada grupo de mil beneficiários de saúde suplementar. A média dos países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de 52.

Choca perceber o paradoxo que envolve a situação brasileira. O país que disputa com outras grandes nações a quantidade de exames complexos realizados na medicina suplementar é o mesmo onde grande parte da população ainda enfrenta problemas básicos de saneamento.

Dados do Ministério da Saúde mostram que apenas em 2017 houve 263,4 mil internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS) por doenças causadas pela falta de saneamento básico. No ano anterior, a situação era ainda mais grave: 350,9 mil foram internados pelo mesmo motivo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada dólar investido em água e saneamento resulta na economia de US$ 4,3 em custos de saúde no mundo.

Não surgiram, ainda, no Brasil, casos de empresas que se uniram para criar uma operadora de saúde própria, como fizeram a Amazon, JPMorgan Chase e Berkshire Hathaway no início deste ano. Mas já existem movimentos para unir o setor produtivo em torno do problema. Há um ano foi formado um fórum que reúne 18 empresas. No comando das reuniões do grupo estão a Associação Brasileira de Recursos Humanos e a Aliança para Saúde Populacional, entidade que estimula os dirigentes das companhias a adotar a gestão de saúde. Há um grupo mais novo, porem maior, formado pela CNI, que reúne 44 empresas do setor industrial.

Todas as empresas tem se reunido para trocar experiências. Na maioria dos casos bem-sucedidos, as empresas criaram banco de dados da saúde dos funcionários. Algumas têm médicos em cargos de gerencia. E a maioria optou pela prevenção para evitar doenças ou antecipar diagnósticos antes que apareçam os primeiros sintomas.

Além do acompanhamento medico para tratar fatores de risco, algumas empresas têm incentivado a pratica de exercícios físicos por meio de convênios com academias. Outras também oferecem, em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi), exames de rotina, como mamografia, em clinicas itinerantes, que circulam pela fabrica. Grande parte também mudou cardápios, com a diminuição de sal e de açúcar nos alimentos servidos em seus refeitórios.

Assim como as empresas buscam inspiração no setor de saúde para resolver um problema de custos, médicos também podem aproveitar ensinamentos empresariais. Nas palestras que costumavam dar antes de torna-se CEO da futura empresa de saúde da Amazon, JPMorgan Chase e Berkshire Hathaway, Gawande contava como chegou ao “check list” de cirurgias, tema que transformou-se em livro.

Com o intuito de buscar modelos em setores que lidam com alto risco, ele procurou o chefe de engenharia de segurança da Boeing. O resultado foi a criação de um “check list” com 19 itens que, como em um avião, precisam ser averiguados antes de um procedimento cirúrgico “decolar”. Segundo Gawande, a aplicação da ideia em vários hospitais do mundo ajudou a reduzir em 35% o número de complicações em cirurgias.

Apesar dos avanços, o desafio das empresas não é fácil, como reconheceu recentemente o executivo-chefe da Berkshire, Warren Buffet: “Nosso grupo não chega ao problema com respostas. Mas também não o aceitamos como inevitável”.