Para o presidente da Unimed do Brasil, Orestes Pullin, a polaridade das discussões e a falta de aprofundamento nos problemas do setor de saúde no País têm sido os principais empecilhos para chegar a uma solução real para os gargalos.

Em um cenário onde não há espaço para aumentar os recursos no setor público, mas os custos do mercado privado permanecem elevados, ele aponta como urgente uma discussão mais profunda entre os players para a criação de medidas que diminuam os desperdícios e as fraudes e possam incentivar a atenção primária.

A Unimed do Brasil é a representante institucional das 346 cooperativas da marca, que contam com 18 milhões de beneficiários. Em 2017, a receita total do sistema foi de R$ 69,929 bilhões e o faturamento líquido com planos atingiu R$ 57,289 bilhões.

Porque é preocupante o cenário da saúde?

O Brasil começou a crescer 1%, ou seja, está respirando pela pontinha do nariz, mas ainda não há espaço para aumentar impostos ou o percentual do PIB gasto com saúde. Se não houver uma discussão de que o dinheiro que tem dentro do País é um recurso escasso [para a saúde pública] e que a população tem encontrado dificuldade em contratar plano de saúde – pelo custo –, podemos ter um grande problema na frente. Precisamos de uma discussão não polarizada entre os players da saúde suplementar.

Por que o atual modelo não funciona e é tão caro?

Quando você procura um médico hoje, para onde vai? Para o hospital. Que unidade escolhe? A mais próxima e ainda entra pelo Pronto Socorro (PS). Existe uma deficiência no acesso e na organização do sistema. É um modelo que não tem lógica, é caro e gera desperdício. Além disso, muitas vezes não trabalha com a melhor prática médica e pode ter um viés de comércio [que beneficia o volume e não a qualidade].

Como podemos mudar este cenário na saúde privada?

Acreditamos que com uma lógica diferente que traga a inserção da atenção primária [porta de entrada e orientação pelo médico de família] dentro da cadeia assistencial com uma rede secundária que dê apoio. Isso pode dar uma maior sustentabilidade ao sistema, porque não é mais barato que o atual, mas dá uma racionalidade maior e evita o desperdício. Temos cerca de 40 núcleos desenvolvendo produtos ou contratos dentro desta lógica de inserir a atenção primária.

Quais os principais desafios de implantar este modelo?

Um deles é de mão de obra. Hoje o que mais se aproxima da atenção primária é o médico de família, mas nos últimos anos a falta de vagas no mercado de saúde para esta área, até no setor público, acabou diminuindo a procura pela especialidade. Nas residências, muitas vezes sobra vaga. Hoje, temos a faculdade Unimed que tem cursos de especialização. Estamos criando a cultura e o médico, mas não é um projeto rápido. Uma indução regulatória também pode ajudar o modelo. Tenho falado muito com a Agência [Nacional de Saúde Suplementar, ou ANS]. Se houver medida onde os planos tenham que se adaptar a uma lógica de atenção primária, ajudaria.

As operadoras precisam do incentivo ou as pessoas?

Ambos. Em uma experiência que tivemos há alguns anos internamente, tínhamos uma funcionária que apoiava muito a ideia até que descobriu que não poderia ir direto ao especialista antes de uma consulta com o médico de família. Não é algo simples, é uma mudança de cultura.

O que você acha da possível mudança na Lei 9.656 de 1998, que regula os planos?

Acompanhamos a discussão desde o começo. Na minha opinião há coisas boas, como o ponto que trata o excesso de multas. Mas não acredito que vai no cerne da mudança do modelo assistencial, que é onde acredito que precise de indução. Acredito que [a discussão] em alguns pontos é uma maquiagem para abafar o real problema. Discutimos reforma da Previdência e reforma trabalhista, então na saúde não deveria ser diferente. Só que no nosso caso, a discussão está sendo periférica e não alteraria o rumo das coisas. Foram discutidos os planos populares, por exemplo; isso pode permitir a entrada de alguns no sistema, mas não é uma solução. O Brasil tem um problema de financiamento, então temos que acertar a gestão pública e o setor privado precisa de uma lógica.

Durante a crise o setor perdeu cerca de três milhões de beneficiários. Devemos ver um aumento em 2018?

Acredito que até 2020 estaremos brigando para recuperar o que perdemos. Há três anos na Unimed tivemos cerca de 20 milhões de clientes; houve uma queda durante a crise e hoje estamos com 18 milhões. Desde meados de 2017 até agora temos conseguido estabilizar a perda de clientes. Perdemos praticamente nos mesmos níveis que o setor perdeu, com variações dependendo da região. Cerca de 68% dos nossos contratos são pessoa jurídica [planos coletivos por adesão ou empresarial] e o processo de desemprego acabou impactando.