A pandemia levou a uma elevação expressiva dos preços de medicamentos comprados por hospitais.

Com a abertura de milhares de leitos, a demanda e o valor dos remédios necessários para a intubação de pacientes, por exemplo, explodiram.

Mas a redução nos de casos de Covid e nas internações pela doença deve reaproximar os preços daqueles praticados antes da crise sanitária.

No acumulado dos últimos 12 meses, a evolução do valor dos insumos hospitalares foi menor do que o IPCA: 9,2% contra 10,2%. Na esteira de uma redução de 2,3% em agosto, o preço médio dos medicamentos comprados por hospitais no Brasil caiu 1,3% em setembro, o quarto mês seguido de queda.

É o que mostram os últimos dados divulgados pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisa Econômica) para o índice IPM-H (Índice de Preços de Medicamentos para Hospitais). Desenvolvido em parceria com a empresa Bionexo, a medida é calculada com base nas transações realizadas pela plataforma entre fornecedores e hospitais no país.

“A história do índice no último período é a história da pandemia”, afirma Bruno Oliva, coordenador de pesquisas da Fipe.

Os valores dos insumos hospitalares evoluíam, desde 2015, ao mesmo passo que o IPCA. Em meados de 2020, porém, o IPM-H se descolou da inflação. Em parte, em função da desvalorização cambial e do seu efeito sobre a formação de preços de produtos transacionados no mercado internacional. Contudo, a pandemia foi determinante.

“Quando você olha a oscilação do índice, você identifica claramente as ondas de contágio pela Covid-19. A cada momento de alta da hospitalização, observávamos um grande aumento da demanda por remédios associados ao cuidado dos pacientes e a elevação dos preços”, diz Oliva.

“Vemos agora a desvalorização dos grupos de medicamentos cujos preços mais subiram. E isso deve se verificar ainda nos próximos meses”, completa.

No pico da pandemia, houve um aumento expressivo do valor do chamado kit intubação. E, embora os últimos meses registrem queda dos preços médios dos insumos hospitalares, o forte aumento ao longo da crise sanitária faz com que os valores continuem bem acima daqueles praticados no período anterior.

Um estudo da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar) mostrou que, entre 2019 e os três primeiros meses de 2021, o preço do relaxante muscular rocurônio, utilizado em pacientes sob ventilação mecânica, subiu 216%. Já o Midazolan, anestésico usado no processo de intubação, teve aumento de 524%.

Segundo Vera Valente, diretora-executiva da entidade, 2021 tem sido uma tempestade perfeita para as operadoras de planos de saúde. Se em 2020 muitos procedimentos eletivos foram cancelados, neste ano elas tiveram que lidar com as consequências do represamento dessas consultas e cirurgias ao mesmo tempo em que a segunda onda da Covid lotava os hospitais.

“Tivemos um grande aumento do número de pacientes internados e do custo dessas internações. Os hospitais entraram em desespero com a falta do kit intubação e foram atrás de fornecedores em todas as partes do mundo”, diz ela.

Uma das causas da alta expressiva dos preços de insumos hospitalares foi, justamente, gargalos de oferta. Para o economista do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) Rafael Cagnin, o problema teria sido ainda maior se as empresas nacionais não tivessem reagido aos primeiros sinais da crise e acumulado estoques de insumos importados.

Quando esses estoques acabaram, porém, a capacidade limitada de produção da cadeia global e dificuldades logísticas impostas pela pandemia agravaram o quadro. O que revelou, segundo Cagnin, a vulnerabilidade de um sistema produtivo nacional que perdeu a capacidade de competir com os fabricantes de insumos chineses e indianos.

“O acúmulo de estoque foi uma alternativa pontual, mas ela é onerosa e não resolve o problema da vulnerabilidade da nossa cadeia produtiva”, afirma ele.