“A remuneração de serviços de saúde utilizada na maior parte das instituições brasileiras, baseada na produção, é um modelo defasado que propicia o desperdício de recursos”. A afirmação é de Flávio Bitter, Diretor Técnico e de produtos da Bradesco Saúde e Vice-Presidente da Fenasaúde. Bitter é um dos participantes do IV Congresso Internacional CBA 2017, como debatedor no painel “Caminhos da remuneração baseada em valor”.

Ele explica que a remuneração baseada em valor, o pay-for-value adota mecanismos baseados nos desfechos clínicos e não somente nos procedimentos, pois paga pela produção de resultado para o paciente e, além disso, não cria distorções no modelo. “Não há desvantagens e sim grandes desafios na sua implementação”, alerta ele. Esse novo modelo foi criado em oposição ao que é majoritariamente adotado no Brasil e no mundo: o fee-for-service ou pagamento por procedimento. Na opinião de Bitter, o modelo antigo está ultrapassado, mas tem um ponto positivo que é a facilidade da cobrança. “No entanto, a sua manutenção permanecerá gerando grandes desvios e não é possível pensar em um sistema sustentável com ela”, complementa o executivo.

Saúde sustentável?

Bitter cita a definição do valor em saúde elaborada pelo professor Michael Porter, da Harvard Business School, para esclarecer o que é a geração de valor sustentável em sistemas de saúde: “é a equação em que os ‘resultados de saúde que importam ao paciente’ são divididos pelos ‘custos incorridos em tratamentos e ações de prevenção’. Logo, quanto melhor o resultado e mais baixo for o custo, maior será a geração de valor sustentável para o sistema”.

Obstáculos à frente

O caminho para a implantação da remuneração, baseada em valor em larga escala, ainda é longo. É necessário promover uma mudança na forma de medição de custos e resultados em saúde, a reorganização dos sistemas internos e buscar o desenvolvimento de práticas que incentivem a geração sustentável de valor, observando o ciclo completo do tratamento.

“Esse novo modelo parte do princípio que o prestador deve se organizar em função das condições clínicas dos pacientes e não por especialidades médicas e que é preciso medir os resultados de desfechos clínicos e de saúde de cada paciente. Além disso, o acompanhamento deve ser feito fora dos limites do hospital ou clínica, para que haja uma avaliação de todo o ciclo do tratamento”, explica ele. “Os maiores obstáculos a esse modelo, a meu ver, estão relacionados a encontrarmos nas organizações líderes com essa firmeza de propósito e dispostos a correr riscos, assim como organizações que já possuem sistemas capazes de obter e divulgar informações sistemáticas de custos e recursos alocados e resultados produzidos”, continua.

No Brasil, já começam a surgir algumas experiências de pagamentos por pacotes do tipo DRG – Diagnoses Related Group -, mas que geralmente não levam em consideração desfechos clínicos ou pagamento pelos ciclos do tratamento. “Fora do modelo antigo, há também pagamentos por procedimentos gerenciados para tratamento de um determinado episódio clínico, como cateterismo ou ureterolitotripsia, independentemente da técnica e da quantidade de insumos utilizadas”, ressalta Bitter. De acordo com o diretor, trata-se de modelos mais aprimorados do que o fee-for-service pois incentivam a boa gestão e eficiência, mas ainda não são capazes de remunerar por valor. “Vejo, no Brasil, cada vez mais prestadores e operadoras interessadas em mudar o modelo atual e, algumas experiências exitosas. Isso já é um primeiro passo”, destaca.