A queda na taxa de mortalidade e o aumento da expectativa de vida se apresentam como um prato cheio para empresas de saúde privadas e alimentam uma verdadeira corrida por fusões e aquisições nesta área. A estratégia que predomina na consolidação do setor de saúde é a busca por verticalização das operações, que permite oferecer tickets mais baixos para os consumidores.

As empresas estão buscando oferecer um pacote completo de serviços, com a criação de um ecossistema próprio, pois isso permite ganhar escala e atender uma quantidade muito maior de clientes. Um exemplo emblemático é a Hapvida (HAPV3), que fechou nesta semana a fusão com a NotreDame Intermédica (GNDI3). O grupo cearense opera uma extensa gama de operações, desde planos e laboratórios a hospitais e clínicas.

Outro exemplo da busca pela consolidação é a Diagnósticos da América, ou apenas Dasa (DASA3). A companhia, dona dos laboratórios Delboni e Lavoisier, também decidiu dar um passo em direção ao segmento hospitalar com a compra da rede de hospitais Leforte no final do ano passado.

Também apostando na estratégia de verticalizar as operações está a Rede D’Or (RDOR3), que hoje conta com uma carteira que vai de laboratórios de exames e diagnósticos a hospitais.

No mercado de saúde, tamanho é vantagem

Segundo André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners, empresas grandes têm uma vantagem competitiva natural no setor de saúde. A partir desse modelo, é possível “diluir [os custos] para praticar tickets mais baixos.”

O desafio, no entanto, é garantir um alto índice de eficiência. Afinal, não é a mesma coisa tocar uma empresa que trabalha unicamente em um segmento e um negócio verticalizado, isto é, que opera hospitais, clínicas, laboratórios, planos de saúde, e mais.

Segundo Pimentel, empresas verticalizadas precisam saber receber a demanda do cliente no plano de saúde e direcionar para a unidade que melhor lhe couber e resolver seu problema. Não voltar mais. “A resolutividade tem de ser muito alta”.

Ticket médio baixo é estratégico

Em relatório da XP Investimentos, os analistas Vitor Pini, Matheus Soares, Marcella Ungaretti observam que o modelo verticalizado eficiente implementado pelas companhias, no qual os beneficiários utilizam sua própria rede de atendimento, permite oferecer tickets médios menores do que seus pares.

De acordo com os especialistas, oferecer um ticket baixo é importante para as empresas do setor porque com a maior eficiência e preços mais baixos as empresas podem ofertar uma melhor opção em relação à planos mais caros do lado corporativo e um ‘upgrade’ em relação ao SUS para os planos individuais.

E, de fato, há demanda. Pesquisa realizada pelo Ibope, a pedido do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), revelou que o plano de saúde é o terceiro maior desejo dos brasileiros, atrás apenas da educação e da casa própria. Além disso, 86% dos entrevistados disseram pretender “com certeza” ou “provavelmente” permanecer com o plano já contratado.

Conforme relatório do BB Investimentos, cerca de 67,6% dos beneficiários possuem planos de assistência médica do tipo coletivo empresarial, o que significa que estão vinculados diretamente a um contrato de trabalho formal. O restante é dividido em 13,3% do tipo coletivo por adesão e 19% do tipo individual ou familiar.

Ainda segundo o documento, os gastos com saúde no País são compostos por R$ 355 bilhões advindos do consumo de famílias e apenas R$ 254 bilhões do poder público. Apesar disso, o setor privado detém somente 24,7% da cobertura nacional.

“Se as companhias quiserem crescer vão ter que encarar os planos de saúde individuais”, pontuou André Pimentel. “São milhões vidas em um mercado ainda não explorado.”

‘Brasil é a bola da vez’

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a população manteve a tendência de envelhecimento nos últimos anos e deve dobrar o percentual de idosos nas próximas décadas.

De acordo com a projeção demográfica do IBGE, a população do País com 60 anos ou mais poderia saltar dos atuais 14,3% do total para 32,2%, em 2060.

Enquanto isso, dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) revelam que o percentual da população idosa que possui plano privado de assistência médica ficou acima de 30% em todas as categorias. A média nacional foi de 24,5% no passado.

A distribuição desses valores, contudo, está longe de ser uniforme. Ainda segundo a ANS, a taxa de cobertura de beneficiários está fortemente concentrada na região Sudeste, com os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, bem como o Distrito Federal, registrando percentuais superiores a 30%.

Minas Gerais e outros estados do Sul anotam taxas entre 20% e 30%. A grande maioria dos estados brasileiros, no entanto, tem penetração  de assistência médica privada abaixo de 20%.

“O mercado de saúde é muito regionalizado”, afirmou Henrique Lara, sócio e analista da Reach Capital. O setor “ainda vai passar por uma consolidação”.

“O modelo de negócios que sido capaz de fazer isso é o das [companhias] verticalizadas”, pontuou o especialista. “A estratégia de aquisições vem para alavancar isso.”

Na análise de Renata Simon, sócia do escritório Candido Martins Advogados e especialista em fusões e aquisições, em todas as regiões do Brasil, o movimento é de interiorização, com players comprando empresas menores em municípios onde a concorrência é mais pulverizada.

Nesse sentido, para a advogada, a consolidação do setor de saúde no Brasil deve se dar muito mais por meio de M&As do que por expansão orgânica.

“Não vejo muito esse mercado crescendo organicamente”, avaliou. “É muito mais rápido quando se adquire clínicas, hospitais com seus pacientes próprios.”

2020 foi forte em fusões e aquisições

No final de 2020, a empresa de consultoria e auditoria PwC Brasil divulgou um estudo mostrando que, de janeiro a outubro de 2020, foram realizadas 50 operações de M&As, perto das 57 realizadas em 2019. Ao que tudo indica, a tendência continua.

Fusões e aquisições no setor de saúde, segundo a PwC (até out/2020)

Fusões e aquisições no setor de saúde, segundo a PwC (até out/2020)

Além da fusão Hapvida e NotreDame Intermédica ter chamado atenção do mercado, as empresas de saúde vêm buscando cada vez mais captar recursos por meio de aberturas de capital (IPO, em inglês). Este é o caso da própria Rede D’Or, que movimentou R$ 11,39 bilhões em sua oferta pública inicial de ações no ano passado, a terceira maior já registrada na Bolsa de Valores de São Paulo (B3).

Em 2021, das 24 empresas que pediram registro de IPO na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), sete são do setor de saúde:

  • Hospital Care Caledônia
  • Kora Saúde
  • Hospital Mater Dei
  • Bionexo
  • Laboratório Teuto
  • Blau Farmacêutica
  • CM Hospitalar

Capitalizadas, elas terão ainda mais fôlego para ir às compras. “Vamos ver uma consolidação grande”, disse Renata Simon. “O Brasil é a bola da vez no setor de saúde.”

Cade não deve ser um problema

Ao que tudo indica, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) não deve ser um entrave para o movimento de fusões e aquisições.

Segundo o advogado Ricardo Inglez, sócio e responsável pela área de concorrência do escritório IWRCF, “o Cade gosta muito mais de uma consolidação orgânica que via aquisições”. Isso, contudo, não se coloca como um impedimento para um sinal verde por parte da autarquia, disse o especialista.

“A defesa da concorrência existe para evitar abuso econômico”, explicou Inglez. Dessa forma, “o Cade vai olhar a operação em si”. “É uma lenda de que por causa de uma restrição o Cade estaria preocupado”, se referindo a rumores de que o órgão dificultaria a fusão da Hapvida e da NotreDame Intermédica por ter restringido a compra de empresas pertencentes ao Grupo São Bernardo pela Athena Saúde Espírito Santo.

O advogado ainda ressalta que o órgão de defesa da concorrência poderia dar o aval para uma operação que geraria concentração elevada. “O Cade procura característica positivas, apesar de uma tentativa de abuso”. Sendo assim, no caso de um negócio benéfico ao consumidor e ao mercado, a autarquia “poderia aprovar uma concentração elevadíssima”.

“O setor de saúde no Brasil é um setor estressado”, declarou Inglez. O Cade vai ter de ser “cirúrgico” para separar uma operação prejudicial de um movimento natural de consolidação.