Suporte tecnológico e acompanhamento da cadeia de fornecimento de produtos de saúde e da própria atividade médica são formas de aumentar a transparência de dados, segundo os participantes do primeiro debate do 4º Fórum Saúde do Brasil, realizado na segunda (27), em São Paulo.

A questão torna-se ainda mais importante em um momento de crise como o atual, em que o setor de saúde suplementar perdeu dois milhões de usuários, lembrou Cláudia Colluci, colunista da Folha, que mediou conversa entre Sergio Ricardo Santos, CEO da Amil Saúde, Carlos Alberto Pereira Goulart, presidente da Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde) e Mauro Aranha, presidente do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo).

Santos, da Amil, afirmou que falta ao setor desenvolver uma visão estratégica para avaliar e diminuir o impacto de todos os fatores que são consequência da falta de transparência.

Entre esses fatores, estão as fraudes, abusos e desperdícios, segundo Santos. “O encolhimento do setor de saúde suplementar afeta a sustentabilidade do sistema, mas também obriga a ter mais transparência, para rever decisões e gestão”, afirmou o CEO da Amil.

Ele defendeu investimento em tecnologias de informação para tornar a comunicação entre clientes, operadoras e prestadores de serviços mais evidente.

A questão da precificação dos produtos de saúde, atualmente debatida no Congresso, foi abordada por Goulart, presidente da Abimed.

Maior transparência em toda a cadeia que leva os produtos do fabricante ao consumidor final é a forma de enfrentar o problema da grande diferença de preços de materiais, como a vista no caso da máfia das próteses.

Uma parte da diferença de preços é criada por questões legítimas, como dificuldade de estoque, afirmou Goulart, mas há várias práticas ilícitas no setor.

“A cadeia de fornecimento justifica parte da diferença de preços. O que ela não consegue justificar, vai para a polícia”, disse Goulart.

MÉDICOS E A INDÚSTRIA

Ao mesmo tempo, ele enfatizou a necessidade de maior transparência nas relações entre médicos e indústria e a importância de diminuir os conflitos de interesse entre as duas partes. “Reduzir conflitos de interesses é uma questão ética fundamental”, afirmou Goulart.

Segundo Aranha, do Cremesp, desde 2015 o conselho obriga o médico a declarar vínculo com a indústria.”O próximo passo é garantir aos pacientes acesso a essa declaração”, disse Aranha.

Desde 2014, 30 médicos do Estado de São Paulo foram julgados em processos éticos relacionados a órteses, próteses e materiais especiais, afirmou o presidente do Cremesp. O conselho recebe anualmente cerca de 3.000 denúncias ao todo, e 15% delas se tornam processos éticos-disciplinares, segundo Aranha.

“No ano passado, foram feitas quase 30 cassações de registros de médicos relacionadas a diferentes assuntos”, afirmou.

Porém a proliferação de escolas médicas tem dificultado as ações dos conselhos. “Temos hoje em torno de 46 escolas abertas em todos o Estado, várias com critérios escusos. E o sindicato das escolas privadas ganhou uma ação tirando a obrigatoriedade do exame do Cremesp para os egressos da faculdade”.

Aranha defende a transparência em todos os setores, públicos e privados, como forma de resolver o buraco da saúde. “Nos últimos três anos, há um movimento para destruir o SUS. A transparência deve começar no Ministério da Saúde.”

É preciso informar e envolver a sociedade, diz ele. “A população está mobilizada no combate à corrupção em vários setores, mas não em saúde ou educação”, afirmou Aranha.