Aumentar a carteira de beneficiários em cem mil até o fim do ano. Esse é o plano da Unimed-Rio, que se recupera, embora ainda inspire cuidados. Sob direção fiscal e econômica (espécie de intervenção), a cooperativa comemora o resultado positivo de R$ 101 milhões no primeiro trimestre deste ano, contra R$ 5,5 milhões no mesmo período de 2016. E aproveita o momento para desenhar uma nova estratégia de recuperação de sua clientela, após ter renovado em março, por tempo indeterminado, o acordo com o Ministério Público estadual e federal, Defensoria Pública, Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), congêneres do sistema Unimed e fornecedores, o que garante o atendimento a seus usuários. Esse processo ajudou a recuperar parte da confiança no mercado. De janeiro a março, cerca de 20 mil pessoas entraram para a Unimed-Rio.

— O pior já passou, mas ainda estamos longe de onde queremos chegar. Uma empresa do tamanho da Unimed é como um transatlântico, demora para fazer a curva. Há ainda muito a fazer, mas já se observa enorme diferença entre o resultado do primeiro trimestre deste ano e o do ano passado — diz William Galvão, diretor financeiro da cooperativa.

Outro indicador positivo, destacado por Galvão, é a redução da dívida com os bancos, de R$ 464 milhões para R$ 248 milhões, em menos de um ano:

— Uma dívida de dez anos não vai ser paga em dez meses. Como sempre digo, precisamos de duas coisas: dinheiro e tempo. Se eu tiver dinheiro, compro o tempo. Se tiver tempo, vou conseguir o dinheiro. E isso o acordo nos deu.

Perda de 270 mil clientes

Esta semana deve acontecer a primeira reunião de acompanhamento para checar se as metas estão sendo cumpridas, desde a renovação do acordo, no fim de março. Mas, segundo fontes ligadas às entidades signatárias do termo, até o momento não há qualquer indicativo de descumprimento.

— A entrada de novos beneficiários pode ser importante para compensar os que foram perdidos. Não vemos problema nisso. A Unimed-Rio tem uma rede que comporta mais gente, mas a situação da cooperativa ainda é muito delicada — diz uma fonte próxima ao acordo, afirmando que o monitoramento da empresa é de longo prazo. — Esse processo de recuperação vai durar anos.

 A Unimed-Rio já teve cerca de um milhão de beneficiários; hoje, são 730 mil. Apesar de todos os percalços dos últimos anos, pesquisa realizada pela cooperativa, em março, com clientes que deixaram a empresa aponta que 76% deles teriam interesse em voltar a ter um plano da Unimed-Rio. Para desenvolver o projeto de vendas, a cooperativa foi buscar Humberto Torloni Filho, que acabara de se aposentar após 35 anos no mercado de saúde suplementar e passou a ocupar a superintendência comercial da cooperativa há pouco mais de um mês.

— Já comecei a visitar corretores para mostrar o resultado e nossa rede de hospitais e clínicas. Não temos mais problema com atendimento. Os corretores, que não estavam mais cotando nossos planos, já voltaram a fazê-lo — diz Torloni. — Temos uma marca muito forte. Os clientes saíram com medo do que ia acontecer, mas já percebemos um retorno. Crescer também é importante para a sustentabilidade. Estamos de volta ao jogo e agora queremos ganhar o torneio.

O que pode ser um empecilho para a empresa são os planos que estão com a venda suspensa pela ANS. Atualmente são 18 — em 2015 chegaram a ser 26 — e a expectativa é que o número caia na divulgação do próximo ciclo do Programa de Monitoramento de Garantia de Atendimento da agência. A Unimed-Rio tem 157 planos registrados na ANS que podem ser vendidos, entre individuais, coletivos por adesão e coletivos empresariais.

Número de queixas diminuiu

Atualmente, a empresa ocupa a terceira posição do Índice Geral de Reclamações (IGR) da ANS. Pelos dados de março, os mais recentes disponíveis da agência, o IGR da Unimed é 10,17. O índice médio das operadoras de grande porte nesse período foi de 2,77. No momento mais crítico, em novembro passado, o índice da cooperativa chegou a 22,66.

— O acordo prevê metas de queda de reclamações. Em abril, era de redução de 25%, mas conseguimos 49%, na comparação a setembro, que é o parâmetro do documento. — afirma William Galvão, diretor financeiro.

Atenção à qualidade dos planos

A ANS afirma que continua monitorando com rigor a situação da Unimed-Rio, tanto no que diz respeito à sua situação financeira quanto à prestação da assistência aos seus beneficiários e ao cumprimento dos compromissos assumidos com ANS e procuradores. A agência ressalta que a cooperativa pode aumentar o número de beneficiários, mas deve garantir atendimento. Para isso, a ANS não precisa autorizar, mas a reguladora adverte que um número maior de clientes pode dificultar o cumprimento pela cooperativa de metas e obrigações estipuladas no Termo de Compromisso .

Mário Scheffer, professor do Departamento de Medicina Preventiva da USP, na área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, diz que nesse momento é preciso observar o tipo de produto que a Unimed-Rio vai pôr no mercado:

— Já vimos no mercado paulista operadoras, em situação semelhante, que voltaram a vender de forma agressiva, reduzindo a qualidade da rede prestadora para fazer caixa rápido, e isso estoura depois na Justiça. Em São Paulo, há mais de 70 mil ações contra planos de saúde. É preciso monitorar o perfil da oferta.

Na avaliação de Scheffer, o mercado de saúde suplementar “vai muito bem”:

— A receita do setor sobe sempre acima da inflação. É certo que vivemos um momento de crise e que isso afeta o setor, mas quando o mercado de trabalho formal crescer de novo isso também se refletirá.