Segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) na terça-feira (17), o setor acumulou receitas totais de R$ 391,6 bilhões em 2025, apresentando um lucro líquido de R$ 24,4 bilhões, maior valor registrado desde 2018 no Brasil.

Na prática, os números demonstram que 81,7% das receitas provenientes das mensalidades foram utilizadas para despesas assistenciais, menor índice registrado desde 2020. Essa redução da chamada sinistralidade se explica principalmente pela recomposição das mensalidades. Mas não só.

“Analisando redução da sinistralidade e elevação do lucro líquido, vejo uma relação direta com o aumento dos valores das mensalidades, a recusa de prestação de serviços e até mesmo rompimento unilateral de contratos, principalmente para usuários que representam maiores custos, isto é, os que possuem doenças crônicas e complexas”, avalia o pós-doutor em Saúde Pública pela USP, professor universitário e pesquisador Eduardo Magalhães Rodrigues.

Para o pesquisador, a redução da sinistralidade não significa que tenha havido melhoria das condições de beneficiários de planos de saúde, pelo contrário: pode ser resultado da redução do acesso aos seus direitos. “O crescente aumento de questionamentos judiciais, por parte dos usuários, demonstra que a negação de serviços é elevadíssima. Outro elemento que podemos questionar é a qualidade dos serviços prestados: serviços com menor qualidade podem representar redução dos custos e, portanto, aumento nos lucros”.

Entre os números divulgados, chama a atenção o papel dos resultados financeiros – impulsionados pela taxa de juros nas alturas. As aplicações das operadoras médico-hospitalares renderam R$ 134,5 bilhões ao fim de 2025, uma fonte importante de receita adicional para compor o lucro final.

“O percentual do lucro dos planos, fruto de aplicações financeiras, é mais uma demonstração de que o que importa é o lucro e que, cada vez mais, o setor de saúde está vinculado, organicamente, ao setor financeiro”, analisa Rodrigues. “Vejamos, por exemplo, a presença do Bradesco e suas parcerias com outras operadoras privadas, como a que fez em 2022 com a Rede D’Or”, exemplifica.

O professor aponta que é necessário estabelecer uma maior regulação e fiscalização do setor, com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e também por meio do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), para impedir a oligopolização do mercado. “No setor sem concorrência, os atores, no caso, os planos de saúde, fazem o que querem. É o que está acontecendo, há anos. E o quadro vem se agravando”.