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Unimed prevê caneta emagrecedora nos planos

03/08/2026 Fonte: infoMoney
Economia e Saúde e Rol
Os medicamentos agonistas GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, representam um divisor de águas terapêutico e devem entrar na cobertura de planos de saúde em algum momento. Contudo, sem uma discussão séria sobre precificação, o impacto pode se transformar em mais um capítulo da judicialização que já onera o setor de saúde suplementar. Foi o que compartilhou Helton Freitas, presidente da Seguros Unimed e da Faculdade Unimed, além de CEO da InvestCoop Management, gestora de recursos do grupo, e presidente do conselho administrativo do MultiCoop, fundo do pensão do mesmo sistema, uma conversa exclusiva com o InfoMoney Entrevista.

“Veio para ficar. Uma hora vai entrar na cobertura dos planos. Não tenho muita dúvida sobre isso. Mas a gente precisa discutir de maneira muito séria o custo de introdução de novos medicamentos no Brasil. Essa talvez seja a pauta mais importante que a sociedade brasileira precisa ter não só com as seguradoras, mas especialmente com a indústria farmacêutica”, disse Freitas, médico de formação e gestor do sistema de cooperativas que responde por 38% do mercado de saúde suplementar no Brasil.

Segundo o executivo, o fenômeno das canetas emagrecedoras ilustra um dilema mais amplo da saúde suplementar: o modelo de remuneração por procedimento (fee for service) induz ao excesso, a judicialização empurra custos para dentro do sistema e a regulação nem sempre acompanha a inovação farmacêutica.

“A grande questão é: como oferecer o necessário, nem mais nem menos? Porque o médico não ganha para te manter saudável. Ele ganha para fazer o procedimento. É um incentivo torto”, afirmou.

Questionado sobre os desafios que o setor tem pela frente, o executivo citou a transição demográfica, com pessoas vivendo mais e carregando doenças crônicas por décadas, que vai exigir uma mudança de paradigma na gestão da saúde.

Freitas também detalhou, entre outros temas, os desafios regionais do sistema Unimed e como a inteligência artificial já transforma a detecção de fraudes e o apoio à decisão clínica.

Leia, abaixo, trechos editados da entrevista com o presidente da Unimed Seguros, Helton Freitas.

IM: Vamos falar do modelo de cooperativa. A Unimed se diferencia num mercado concentrado em grandes grupos privados. O senhor vê isso como vantagem competitiva?

Helton: No sistema Unimed, o médico é o próprio dono. Ele investe capital na cooperativa. São mais de 340 cooperativas hoje, entre cooperativas de primeiro grau, onde estão os médicos; cooperativas de segundo grau, que são associações de outras Unimeds; e a cooperativa de terceiro grau, que é a Unimed do Brasil, uma confederação. Se somar com a seguradora, que é uma SA, chegamos a 38% de market share na saúde suplementar brasileira. É a maior fatia. Mas existem uma série de contradições, de questões devido à “singularidade”. As cooperativas têm muita autonomia – cada uma tem sua diretoria, seu presidente. Se você sentar para discutir o sistema Unimed, precisa saber exatamente com quem está falando. Isso dá resiliência – se uma Unimed entra em dificuldade, o resto do sistema está bem –, mas também torna a coordenação mais complexa.

IM: E existe uma diferença regional? Qual o market share em São Paulo?

Helton: Exato. Minas e Espírito Santo têm uma cultura cooperativista muito forte. As Unimeds chegam a 60% em MG. Já em São Paulo – que concentra 25% dos beneficiários de saúde suplementar do país – pela grandeza do mercado, a Unimed não foi bem. Tentamos reproduzir um modelo que deu certo em muitos lugares, mas São Paulo não foi legal. Agora, o principal desafio da nossa seguradora é exatamente explorar o mercado da cidade de São Paulo e Brasília. É o maior mercado do país. Precisa ser olhado com muita distinção.

IM: Quais são os maiores desafios do setor nos próximos anos?

Helton: A transição demográfica – as pessoas estão vivendo mais, e isso é ótimo, mas traz consequências. As doenças mudam. O modelo ‘curativista’ perde lugar para o manejo de condições crônicas. Você vai desenvolver um diabetes, uma hipertensão, e vai carregar isso a vida inteira (…) A grande questão é: como oferecer o necessário, nem mais nem menos? O modelo ‘fee for service’ – em que o médico ganha por procedimento – induz ao excesso. É um incentivo torto (…) A gente trouxe para São Paulo uma fundação canadense que vai consultório por consultório discutir com o médico a prática dele – se o que ele está solicitando tem embasamento científico. E muda muito. No momento em que você coloca alguém capacitado debatendo a prática médica, você melhora a qualidade e reduz o desperdício. E, no final das contas, é isso que segura o reajuste para o beneficiário.

IM: A judicialização é um tema recorrente. Como o senhor avalia o cenário depois da decisão da Justiça sobre o rol da ANS?

Helton: O fenômeno da judicialização é uma jabuticaba brasileira. Você vai para a Europa falar sobre isso e as pessoas acham que é problema de tradução, porque lá não existe esse fenômeno de você “judicializar” individualmente um tratamento (…) O seguro de saúde parte de uma cobertura definida. Não faz sentido eu comprar um seguro sem ter claramente o que está coberto. Se mexo na cobertura depois, tenho que mexer no preço também. Mexer só de um lado gera inconsistência.

IM: Por que é tão difícil encontrar plano individual sem coparticipação?

Helton: A coparticipação alinha os incentivos. Em mercados onde a coparticipação é forte, o preço do plano é mais baixo. São Paulo tem uma cultura muito pequena de coparticipação, mas estamos num esforço para implantar. Já o plano individual é outro problema. A regulamentação colocou tanta proteção que o custo fica proibitivo. Você não pode rescindir com o beneficiário, o reajuste é apenas o que a ANS autoriza, e temos a judicialização. Sem contar o fenômeno da aceitação: ninguém considera fraude alguém com doença grave tentar fazer um plano de saúde – mas, do ponto de vista securitário, é muito semelhante a bater o carro e correr para fazer seguro.

IM: Não tem como falar de tendência sem falar de canetas emagrecedoras. Como o senhor enxerga esse fenômeno do ponto de vista da saúde suplementar? Já impacta as operadoras?

Helton Freitas: Certamente. Se você for montar um sistema de saúde – e, com um milhão de vidas, você já tem um sistema de saúde –, faria três coisas com grande impacto: vacinar as pessoas, controlar os diabéticos e controlar os hipertensos. A obesidade está no centro disso tudo. Sempre achei a cirurgia bariátrica um método inadequado porque trata o lugar errado. A compulsão por comer nunca está no estômago, está na cabeça. Esses agonistas tratam fundamentalmente o lugar certo. Eles tiram aquela compulsão, aumentam a saciedade, ajudam a controlar a hipertensão e o diabetes. A endocrinologia hoje defende, e eu concordo, que a obesidade é uma doença crônica. Você não vai “deixar de ser obeso”. Faria sentido ter um tratamento continuado. A questão é que isso veio para ficar. E uma hora vai entrar na cobertura dos planos. Mas aí entra outro problema: o custo.

IM: Mas hoje não existe cobertura para emagrecedor nos planos, certo?

Helton: Não existe. Mas existe judicialização. É um tratamento. O que eu estou dizendo é que veio para ficar. Uma hora vai entrar na cobertura dos planos. Não tenho muita dúvida sobre isso. Mas a gente precisa discutir de maneira muito séria o custo de introdução de novos medicamentos no Brasil. Essa talvez seja a pauta mais importante que a sociedade brasileira precisa ter não só com as seguradoras, mas especialmente com a indústria farmacêutica.

IM: Como a inteligência artificial está transformando a Unimed Seguros?

Helton: Usamos IA em três momentos: na precificação, na aceitação e na gestão do sinistro. Na precificação, conseguimos analisar bases muito mais amplas, com muito mais precisão. Na aceitação, detectamos padrões – a forma como a pessoa preenche o formulário já sinaliza riscos. Na gestão, a IA é excelente para detectar fraudes. Um fraudador na China e outro no Brasil, no final, têm um padrão. Hoje temos instituições que simulam procedimentos cobertos para realizar tratamentos estéticos não cobertos. Passando os dados por algoritmos, a gente detecta e coloca em evidência.
Os médicos também estão usando IA como escrivão – fazem a consulta e a inteligência artificial preenche o prontuário com uma qualidade que nenhum de nós, médicos, preenchemos durante a formação.

IM: E numa letra melhor.

Helton: [Risos] Letra melhor. Tudo certinho, fácil de pesquisar depois. A IA no apoio à decisão clínica é fundamental. Não para tomar a decisão, mas para fazer perguntas, apoiar.