Consultoria atuarial para operadoras de planos de saúde

A saúde suplementar pode mudar de mãos. A confiança, não

01/10/2026 Fonte: Medicinasa
Economia e Saúde

A saúde suplementar brasileira atravessa nos últimos anos uma transformação profunda. Fusões, aquisições, mudanças de controle, verticalização e concentração passaram a fazer parte da dinâmica de um setor que atende mais de 53 milhões de brasileiros e ocupa posição estratégica na economia do país. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), eram 53,16 milhões de beneficiários em planos de assistência médica em julho de 2026.

Os movimentos recentes mostram que não se trata de uma tendência passageira. Empresas tradicionais enfrentam processos de reorganização, enquanto grandes grupos buscam escala, eficiência, capital e capacidade de investimento. A trajetória da Golen Cross é um exemplo emblemático: em 2025, a ANS decretou a liquidação extrajudicial da Vision Med Assistência Médica, operadora associada à marca, após graves problemas econômico-financeiros e administrativos.

Entre o final de 2021 e início de 2022, foram realizadas cerca de 150 operações relevantes – dentre elas, a aquisição da SulAmérica pela Rede D’Or e a fusão NotreDame/Hapvida. Esses movimentos refletiam a busca por escala, diversificação de serviços e maior presença.

Não há nada de errado, em princípio, com fusões e aquisições. Saúde exige capital, tecnologia, infraestrutura, inovação e gestão profissional. Escala pode trazer eficiência, ampliar a capacidade de investimento e contribuir para a sustentabilidade das organizações.

Entretanto, existe uma pergunta que precisa acompanhar todas essas transformações: quando uma operadora muda de mãos, o que acontece com a relação de confiança entre médico e paciente? Essa discussão é especialmente importante porque saúde não é apenas um negócio. É uma atividade em que o vínculo humano faz parte do próprio resultado que se pretende alcançar.

No ambiente empresarial, é natural falar em carteira de beneficiários. O conceito é importante para a gestão, mas não podemos perder de vista aquilo que existe por trás de cada número: pessoas, famílias e histórias de vida. Quem contrata um plano de saúde está buscando muito mais do que uma rede credenciada. Está procurando segurança para um momento de vulnerabilidade e a certeza de que, quando precisar, encontrará acesso, qualidade e profissionais em quem possa confiar.

A medicina, por sua própria natureza, depende de relações que se constroem ao longo do tempo. O médico precisa conhecer o histórico do paciente, compreender sua evolução e estabelecer uma relação de confiança que, em muitos casos, acompanha diferentes fases da vida. É justamente nesse ponto que o modelo cooperativista médico apresenta uma característica que o diferencia.

E isso não é apenas uma diferença societária. É uma diferença de perspectiva. O médico cooperado tem vínculo com a organização, participa de sua construção e compartilha a responsabilidade por sua sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a cooperativa tem como parte de sua essência a valorização do trabalho médico e a qualidade da assistência. Essa combinação favorece uma visão de longo prazo – algo especialmente importante em saúde.

Uma empresa pode ser comprada, vendida ou incorporada. Um controle societário pode mudar e uma estratégia empresarial pode ser completamente redesenhada. Já uma relação construída durante décadas entre médico, paciente e família possui outra natureza.

É o pediatra que acompanha uma criança e, anos depois, atende seus filhos. É o clínico que conhece o histórico de uma família. É o especialista que acompanha um paciente ao longo de diferentes fases da vida. Esse vínculo não aparece necessariamente em um balanço financeiro, mas representa um patrimônio extraordinário para qualquer organização de saúde. É o cuidado que passa de geração para geração.

Cooperativismo não significa abrir mão de escala. É importante desfazer uma ideia equivocada: cooperativismo não é sinônimo de pequena escala ou de resistência à modernização. O Sistema Unimed reúne atualmente 336 cooperativas, 115 mil médicos cooperados, 19,5 milhões de clientes, mais de 30 mil hospitais, clínicas e serviços credenciados e 176 hospitais próprios, com presença em 92% do território nacional.

São números que demonstram capacidade de escala, mas construída a partir de uma lógica diferente da simples concentração empresarial. É uma escala baseada na cooperação e que permite combinar a força de uma marca nacional com a proximidade das cooperativas locais. Essa característica é especialmente importante em um país com dimensões continentais e realidades regionais tão diferentes. Conhecer a comunidade, compreender seu perfil epidemiológico e manter proximidade com médicos, empresas e famílias são vantagens que não deveriam ser subestimadas.

Quanto mais o setor se concentra, mais valor pode adquirir a proximidade. Quanto mais se fala em escala, mais importante se torna demonstrar que é possível ter escala sem perder o vínculo. E quanto mais as empresas são avaliadas por seus ativos financeiros, mais necessário se torna mostrar que confiança, relacionamento e continuidade também são ativos estratégicos.

E o mais importante: o futuro da saúde suplementar será definido pela confiança. O setor da saúde suplementar brasileiro continuará passando por alterações. Novas fusões e aquisições certamente ocorrerão. Empresas serão reorganizadas, novos modelos de negócio surgirão e a tecnologia transformará cada vez mais a maneira como médicos e pacientes se relacionam. Tudo isso faz parte da evolução de um mercado complexo.

Mas, em meio a tantas mudanças, algumas coisas precisam permanecer. O compromisso com o paciente. A valorização do médico. A continuidade do cuidado. A responsabilidade com as comunidades. E a capacidade de construir relações que resistam ao tempo. É justamente aí que está uma das maiores forças do cooperativismo médico. Uma cooperativa não nasce para ser preparada para uma futura venda. Ela nasce para continuar existindo, crescendo e cuidando. Essa diferença precisa ser compreendida. Esse é um diferencial que não se compra. Constrói-se ao longo do tempo. E, quando construído por médicos e sustentado por uma cooperativa, pode atravessar gerações.