FenaSaúde analisa indicadores do setor de saúde
A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) realizou, nesta terça-feira, 16 de junho, mais uma edição de sua transmissão dedicada à análise de indicadores do setor. Durante o encontro, foram divulgados dados que apontam uma recuperação gradual do mercado de planos de saúde, ao mesmo tempo que evidenciam desafios relacionados à sustentabilidade da saúde suplementar. A transmissão foi conduzida por Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde; Rafael Scherre, diretor de regulação econômica da entidade; e João Marchi, coordenador de informação em saúde suplementar.
As projeções da entidade para 2026 indicam estabilidade na quantidade de beneficiários. Os modelos de projeção utilizados estimam entre 53,5 e 54 milhões de beneficiários no fim do ano, mas os resultados observados até abril ainda não confirmam essa evolução.
“Existe uma correlação histórica entre o PIB, a taxa de desemprego e o número de beneficiários da saúde suplementar. Mesmo com o desemprego em níveis historicamente baixos, o cenário de juros elevados e o permanente aumento dos custos assistenciais exercem pressão sobre a capacidade de expansão do setor”, disse Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde.
Despesas com judicialização batem novo recorde e chegam a R$ 5 bilhões**
As despesas com judicialização na saúde suplementar atingiram um novo recorde. De acordo com os dados mais recentes divulgados pela ANS, no acumulado de 12 meses até o 1º trimestre de 2026, essas despesas ultrapassaram, pela primeira vez, a marca de R$ 5 bilhões, representando um crescimento de quase 11% em relação ao acumulado de 2025.
Atualmente, as despesas judiciais já correspondem a 1,8% do volume total de indenizações do setor. Entre as operadoras de grande porte, essa proporção já supera 2%. Esse número considera apenas as despesas com indenização de ações judiciais. Os custos (diretos e indiretos) relacionados às mais de 420 mil ações em curso são muito mais amplos e oneram as mensalidades de todos os beneficiários de planos de saúde.
Taxa de cobertura estável há uma década e peso do resultado financeiro
A série histórica analisada pela entidade mostra que a taxa de cobertura dos planos médico-hospitalares permanece próxima de 25% da população brasileira há mais de uma década, o que mostra as dificuldades de expansão da saúde suplementar. Já os planos odontológicos mantêm trajetória de crescimento gradual, passando de cerca de 10% de cobertura em 2014 para 17% no início de 2026.
O aperto dos resultados operacionais é um dos indicadores que ajuda a explicar essa dificuldade. Dados referentes ao período entre 2018 e 2025 mostram que a margem operacional do período foi de apenas 1,7%, com fortes perdas relacionadas à pandemia. No mesmo período, o resultado financeiro, proveniente das aplicações das reservas técnicas, respondeu por 53% do resultado total das operadoras (antes dos impostos), enquanto o resultado operacional representou apenas 23% do total.
Rentabilidade abaixo de outros segmentos
Para aprofundar o diagnóstico sobre a situação econômica do setor, a FenaSaúde encomendou um estudo à consultoria LCA, que comparou o desempenho da saúde suplementar com outros segmentos da economia no Brasil e no exterior.
Entre os principais resultados estão:
- Margem líquida reduzida: entre 2010 e 2025, a margem líquida média das operadoras foi de 3,5%. Excluindo o resultado financeiro, a margem ficou em 0,6% no período.
- Retorno inferior ao custo de capital: segundo o estudo, o retorno obtido pelas operadoras sobre os recursos investidos foi insuficiente para remunerar o custo de capital ao longo do período analisado, especialmente após a pandemia.
- Desempenho inferior a outros segmentos: a margem líquida média das operadoras foi inferior à observada em outros elos da cadeia da saúde. Enquanto o setor de planos de saúde registrou margem de 3,5% entre 2010 e 2025, a indústria farmacêutica apresentou margem média de 19,6% no mesmo período.
Os indicadores também mostram que as despesas assistenciais seguem crescendo em ritmo superior ao das receitas e da inflação. Em 2025, de cada mensalidade paga pelos beneficiários, apenas R$ 15 permaneceram, em média, com as operadoras após o pagamento das despesas assistenciais. No período de 2010 a 2025 esse valor é ainda menor – apenas R$ 5,70 das mensalidades permaneceram com as operadoras.
Sustentabilidade do setor e ajustes regulatórios
No segmento de planos individuais, a equipe técnica da FenaSaúde reforçou, durante a transmissão, que há um forte descompasso entre a evolução dos custos assistenciais e os mecanismos de reajuste atualmente vigentes. Essa diferença representa um dos desafios para a sustentabilidade econômico-financeira da saúde suplementar.
Outro tema abordado durante a transmissão foi o impacto do envelhecimento populacional sobre o setor. Atualmente, a proporção de beneficiários na última faixa etária em relação à primeira é de 72%. As projeções apresentadas durante a transmissão indicam que essa relação poderá alcançar 109% na próxima década, em um ritmo de envelhecimento superior ao observado nos últimos 25 anos.
“Esse cenário reforça a necessidade de maior flexibilidade regulatória, de forma a acompanhar as transformações demográficas, epidemiológicas e econômicas do país, caso contrário o setor não vai crescer”, afirmou Rafael Scherre, diretor de regulação econômica da FenaSaúde.
Durante a transmissão, a equipe técnica também defendeu a ampliação do debate sobre mecanismos de compartilhamento de custos e moderação de uso, como coparticipação e franquias. De acordo com Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde, esses instrumentos podem ampliar as opções de acesso aos planos de saúde e contribuir para o equilíbrio do sistema no longo prazo.
“Os números mostram que a saúde suplementar segue atendendo mais de 53 milhões de brasileiros, mas enfrenta desafios estruturais que exigem aperfeiçoamentos regulatórios e instrumentos capazes de garantir sua sustentabilidade no longo prazo. O envelhecimento populacional, a evolução dos custos assistenciais e a necessidade de ampliar o acesso exigem um debate baseado em dados e evidências e a busca de soluções que preservem o equilíbrio do sistema de saúde no país”, concluiu Sobral.