SESI: “Indústria pode contribuir com a agenda da saúde”
Empresas e indústrias respondem por cerca de 70% dos beneficiários de planos de saúde no país, uma vez que grande parte da cobertura é oferecida como benefício corporativo e financiada pelas folhas de pagamento. Apesar disso, existe uma percepção de que o segmento empresarial participa pouco das discussões mais amplas sobre os rumos da saúde no país. Mas essa realidade tem mudado. Em novo episodio de Futuro Talks, Emmanuel Lacerda, superintendente de Saúde e Segurança na Indústria do Serviço Social da Indústria (SESI), fala sobre saúde suplementar e a agenda do Movimento Empresarial pela Saúde (MES) em discussões sobre assistência, qualidade do cuidado e sustentabilidade dos custos.
Na conversa, Lacerda apresenta as frentes do movimento, que incluem prevenção, interoperabilidade de dados e acesso a tecnologias de alto custo. Uma das propostas em discussão com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é a portabilidade do cuidado: permitir que o histórico de ações preventivas acompanhe o beneficiário na mudança de operadora, com incentivos para a continuidade do acompanhamento.
Outros projetos também avançam, como a possível criação de um mecanismo complementar de financiamento de medicamentos de alto custo, o que reduziria impacto para planos de saúde e, consequentemente, a indústria. Além disso, Lacerda afirma que o MES tem acompanhado com atenção o contexto da obesidade e pensando em formas de ampliar a prevenção e até mesmo modelos para possibilitar o acesso dos trabalhadores a tratamentos. Para o executivo, o uso dessas terapias deve estar inserido em uma linha de cuidado estruturada, com acompanhamento multiprofissional e orientação contínua.
A conversa também abordou os desafios em torno da organização do sistema de saúde e seus modelos de remuneração. Na sua avaliação, a evolução dessas discussões, assim como das iniciativas conduzidas pelo movimento em conjunto com outros representantes da saúde suplementar, está condicionada ao fortalecimento da interoperabilidade de dados, um desafio ainda não solucionado pelo setor.
Nos últimos anos, a indústria tem buscado participar de uma forma mais ativa das discussões sobre a saúde no Brasil, não apenas como empregadora ou financiadora do sistema, principalmente da saúde suplementar, mas também na formulação de propostas para o setor. Quando essa pauta começou a emergir e a ter mais força?
Emanuel Lacerda - Essas discussões em torno da saúde, na indústria em geral, têm uma pauta de dez anos. Inicialmente foi constituído um grupo de trabalho cuja principal dor era enfrentar os custos associados aos planos de saúde. Sinistralidade. Era uma pauta muito difusa, sem um mapa claro de construção de uma agenda que seria uma proposta da indústria para melhorar o sistema de saúde, em especial a saúde suplementar. À medida que esse grupo de trabalho cresce e esses movimentos avançam, tem um episódio importante na agenda da saúde das empresas e da indústria: a pandemia. O grupo de trabalho, como vários outros fóruns, foi afetado naquele momento pelas dinâmicas dos trabalhos e dos encontros. Mas eu diria que a agenda da saúde entra forte nas empresas, não apenas do ponto de vista dos riscos ocupacionais. Elas se deram conta de que tinha um vírus entrando no seu ambiente e colocando em risco a saúde das pessoas, que não tinha nada a ver com o trabalho. Era uma pandemia global. As empresas perceberam: saúde é uma questão não só de preservação das vidas, mas também de perenidade dos negócios. Isso foi uma mudança. Os protocolos de biossegurança. Passada a pandemia, com seus rescaldos, como a saúde mental e outros aspectos, os custos crescentes voltam como um movimento amplo, com o entendimento de que não pode ser só uma agenda da saúde suplementar: tem que ser uma agenda mais geral de saúde pública, envolvendo as políticas públicas de saúde. Existem indústrias que conseguem oferecer benefícios de planos de saúde e serviços de saúde, mas grande parte dos trabalhadores ainda não tem planos de saúde. Há indústrias que não conseguem oferecer um plano de saúde, não têm receita nem fluxo de caixa para subsidiar esse benefício para seus trabalhadores. A agenda cresce em importância, porque não adianta discutir o assunto isoladamente. O número de empresas também: a gente praticamente triplicou. Era um grupo de 10, 20 empresas; hoje somos quase 100 dentro desse movimento.
Nos bastidores, converso com muita gente do setor e ouvia que precisávamos trazer as empresas mais para esse debate. Você acha que esse grau de conscientização está cada vez maior? Você prevê esse crescimento daqui para frente?
Emmanuel Lacerda - Cresceu de importância, mas ainda não necessariamente se refletiu nas estruturas de governança das empresas. Primeiro, há uma dificuldade de mensuração de métricas para o entender exatamente o que estamos falando em termos de valor e retorno. Retorno e valor são uma discussão no âmbito da saúde corporativa: o que se pode apresentar ao sobre os investimentos que têm que ser feitos. Você sabe que o custo está alto e que os benefícios dos planos de saúde impactam diretamente os fluxos de caixa. Já se percebe que existem outros custos ocultos ou indiretos em torno do adoecimento, de atestados, de afastamentos de curto prazo e de presenteísmo. Há um conjunto de percepções e algumas métricas em empresas que já conseguem diagnosticar e avaliar como a saúde está impactando suas organizações. Quando se fala que o plano de saúde é o segundo custo, depois da Folha, não é só o custo do plano de saúde. Existem outros custos indiretos, mas o custo do plano de saúde é mais fácil de identificar, porque há a apólice que se paga para a operadora ou seguradora, ou o orçamento da autogestão, se ela tiver. Essa gestão da saúde ainda precisa ser muito profissionalizada nas empresas.
“Ainda há um caminho de maturidade para que a gente tenha a saúde como um ativo estratégico e uma discussão mais estruturada nas empresas. Isso se dá, em parte, por ser um assunto ainda fragmentado.”
A gente está questionando muito a fragmentação no complexo saúde, mas temos que fazer uma autocrítica: as agendas de saúde muitas vezes são fragmentadas dentro das empresas. Colocando o trabalhador no centro, ele pode ser observado diante dos riscos ocupacionais, do trabalho, com toda a organização para prover uma saúde ocupacional segura, mas também tem o benefício do plano de saúde. Muitas vezes, conforme o porte das empresas, são mundos separados. Os benefícios estão com o RH, e a saúde ocupacional muitas vezes está com a SSMA, Segurança, Saúde e Meio Ambiente, ligada às operações. Não necessariamente essas áreas conversam e se integram.
E o CFO, então, menos ainda?
Emmanuel Lacerda - Se for ver o número financeiro, fica assustado, mas também não é responsabilidade dele dar soluções. A empresa tem que possibilitar que essas estruturas tenham uma gestão de saúde efetiva dentro das suas organizações.
Onde você vê o caminho para melhorar essa consciência e diminuir essa fragmentação? Há um caminho a ser percorrido para termos mais maturidade nesse segmento e mais empresas olhando para isso de forma estratégica?
Emmanuel Lacerda – Eu falo de uma forma geral, mas tem empresas que já fizeram muito bem esse dever de casa. Um indicador que mostra isso: se você olha a carteira de contratos da saúde suplementar, apenas 8% das carteiras têm pós-pagamento. Para quem está em pós-pagamento, a necessidade de cuidar da saúde das pessoas se impõe, porque o risco está todo com a empresa. Ela não está transferindo risco para as operadoras, seguradoras. Necessariamente, ela precisa profissionalizar a gestão da saúde. Senão, isso vai se tornar impraticável e insustentável. Estou falando de empresas do MES que são, em grande parte, de pós-pagamento e já têm um nível de qualificação e de gestão da saúde. Para elas, o desafio é construir um ambiente na saúde, de negócios e regulatório, que faça com que esse ator que paga a conta não só tenha voz, mas capacidade de gerar agendas de melhoria do sistema, tanto em custos quanto em eficiência. Do ponto de vista de lean manufacturing, há grandes empresas da indústria que já adotaram muitas práticas de eficiência nos processos produtivos. Acho que a indústria pode emprestar isso ao sistema de saúde, onde não temos eficiência operacional nos cuidados. É uma agenda potente, porque vai retornar como valor para ela. O outro aspecto da sua pergunta é como atingir as empresas que não têm esses níveis de maturidade. A gente, no MES, inaugura agora uma academia da saúde para qualificar esses gestores de empresa, porque sentimos essa necessidade. Eu já frequentei muitos fóruns, muitos treinamentos, cursos. A oferta de qualificação na área de gestão de saúde geralmente não é feita da perspectiva do gestor de saúde corporativa. Há oferta para gestores de hospitais, de operadoras e de vários entes. Essa necessidade prática de imersões, trazendo atores importantes, é fundamental para o nosso movimento apoiar as empresas.
Queria que você trouxesse um pouco desse contexto. O que é o MES? Desde quando ele existe? Quais são as agendas? Hoje já existem macrotemas? Como esses temas são endereçados nas organizações e nas agências, como a própria ANS?
Emmanuel Lacerda – No pós-pandemia, retomamos essa agenda: deixa de ser um grupo de trabalho e passa a ser um movimento com agenda ampliada. A primeira pergunta que fizemos às empresas foi: quais são os temas e as prioridades para a indústria? Ficou clara, talvez pela maturidade, a questão da saúde mental, da promoção e da prevenção. Precisamos encarar esse assunto. Temos uma agenda de empresas para esse enfrentamento, porque a saúde mental está na sociedade, nas empresas e nas famílias. Ela não tem fronteira. Impacta as pessoas, os trabalhadores e suas famílias de alguma forma. Uma segunda agenda é a da interoperabilidade, dos dados em saúde, uma consequência da fragmentação que existe na saúde privada de certa forma também na saúde pública. A RNDS é um grande projeto de política pública, mas ainda tem desafios de integrar totalmente os dados, até mesmo dentro do SUS. Mais importante do que só integrar é ter um processo de compartilhamento desses dados para o melhor cuidado. Aí sim, você quebra a fragmentação. Essa é a segunda agenda, um segundo grupo de trabalho do MES. Um terceiro grupo foca uma dor antiga dos estipulantes, dos contratantes, e também do sistema de saúde: a judicialização e as tecnologias de alto custo. O MES inclui a indústria dos estipulantes e a indústria da saúde: farmacêuticas, equipamentos médicos e hospitalares. Se é um problema, a gente pode criar solução aqui dentro. Dentro desse grupo de trabalho, estamos criando um projeto de mecanismos complementares às estruturas de seguros para financiar o acesso a tecnologias, não à assistência, apoiando o uso racional e principalmente focado em desfechos, em resultados de saúde para esses estipulantes. Um quarto grupo, recém-desenvolvido, é o do Complexo Econômico do Sistema de Saúde, da cadeia de valor da indústria da saúde. O foco é desenvolver competências de no Brasil. A ideia é uma parceria forte com o Senai para criar estruturas de desenvolvimento de competências e fortalecer o nacional. De forma que a gente busque as metas de políticas públicas da NIB do governo federal, de soberania e de redução da balança comercial. Esse quarto grupo foi lançado no início de 2026 e tem uma agenda específica para esse assunto.
Hoje você já consegue trazer resultados concretos diante dessas discussões?
Emmanuel Lacerda – Claro que não é simples. Existem saídas. A gente trata de agendas de impacto de médio e longo prazo. A efetivação dos projetos não está só no nosso poder de decisão. A gente precisa de um ecossistema. Temos hoje um projeto concreto, saindo dessas discussões, que comentei ontem no evento: trabalhar uma linha de vida. Pode ser da população, mas hoje queremos iniciar isso com a ANS. Uma linha de vida de eventos de prevenção. Na saúde suplementar, a partir de mecanismos de interoperabilidade. Desenhamos nesse grupo de trabalho quais eventos de prevenção podemos ter, pelo menos na vida produtiva do trabalhador, mas isso pode pegar a criança desde o nascimento até o final da vida. Essa linha de vida tem que ser interoperável com todos os operadores da saúde suplementar. É possível. Os dados desses eventos já existem na ANS. A ideia é que, por meio de autorização, as pessoas tenham consciência de que, em determinada fase da vida, precisam procurar um exame ou consulta, porque isso é importante para o autocuidado e para a gestão de saúde com base na prevenção.
“Esse projeto já foi desenhado e estamos em diálogo com a ANS. Temos que ampliar as discussões com quem opera os temas, principalmente operadoras e seguradoras, para quebrar o argumento de que não cuidam da prevenção porque a vida, depois de dois anos, não está mais com aquela operadora”.
Agora, não tem por que não cuidar. Essa visão vai ficar clara. Essa visão não pode servir à seleção de risco para um contrato. A partir do momento em que essa vida está na carteira, vai haver uma visão de gestão de saúde, do que precisa ser feito e das lacunas de cuidado que pode ter. Defendo que isso tem que ser uma agenda da ANS. Temos que convencer a agência reguladora a encampar esse projeto. Há um bom acolhimento da ideia por parte da ANS, mas as operadoras também têm que acolhê-la. A ANS tem que criar sistemas de incentivos para que as operadoras, ao pegar uma população com algumas lacunas, consigam sanear essas carteiras do ponto de vista preventivo. E para o beneficiário é importante, porque ele sabe que se ele está aos 50 anos de idade, ele tem que fazer um exame de colonoscopia, por exemplo. O rastreamento de câncer é importante para a vida, para a qualidade de vida e para os custos assistenciais, porque, se um câncer for detectado mais precocemente, o custeio assistencial também é menor. É um ganha-ganha. A gente está chamando esse projeto de portabilidade do cuidado. O cuidado vai ser portabilizado, assim como os contratos. Todos serão responsáveis por cuidar preventivamente das pessoas, da população sob sua responsabilidade.
Eu adorei essa portabilidade do cuidado. Ouvindo você falar, Emanuel, fico pensando como a gente não tem isso ainda funcionando.
Emmanuel Lacerda – É uma boa pergunta.
Como você disse, sempre ouvi o argumento de que as operadoras não investem em prevenção porque há um investimento, mas às vezes o beneficiário saudável muda para outra. Por que a gente não tem isso ainda? Você já me disse que a ANS recebeu de uma forma positiva. Mas e as operadoras? Elas gostam dessa ideia?
Emmanuel Lacerda – Estamos começando, talvez você seja o primeiro canal a contar para elas. Tenho conversado com alguns representantes. Acho que talvez nem todo o mercado, mas cabe à agência criar mecanismos regulatórios para promover a adesão no setor. Eu acho que faz sentido, porque beneficia todo mundo, inclusive as suas próprias operações. Mas não sei te dizer como é que vai ser recebido no setor. Espero que bem, porque a gente está discutindo uma coisa que é por bem para todo mundo.
Você tem achado mais espaço para falar e fazer prevenção, ou ainda temos que tentar desestruturar a forma como o setor está organizado, porque não fomos moldados para pensar em prevenção?
Emmanuel Lacerda – É verdade que o sistema de saúde se organiza em torno da doença. Até o público, de certa forma, quando prioriza determinadas patologias ou estruturas de serviços assistenciais de alta complexidade. Há muita pressão social sobre esse tipo de estrutura da política pública. Mas, nesse sentido, sempre elogio mais o público do que o privado. O público tem suas dificuldades de acesso, mas, no campo da prevenção, tem grandes projetos, como a Estratégia de Saúde da Família, que leva a saúde para as pessoas. Há de se reconhecer esses esforços nas políticas públicas do SUS. No privado, os negócios não se estruturam em torno da prevenção, mas das doenças, com um encadeamento de oferta de serviços assistenciais e tecnologias. Está mudando. Quando esse cuidado assistencial preventivo, minimamente precoce, começa a ser entendido melhor: um câncer rastreado e diagnosticado em um estadiamento mais precoce é melhor para todo mundo. É melhor para o paciente, que tem sua recuperação e reabilitação mais rápidas, sem sequelas, e mantém sua capacidade para o trabalho, um atributo importante para as empresas. Manter a funcionalidade e a capacidade para o trabalho é importante para as empresas que oferecem o benefício, mas também para os custos. A gente sabe entre um estadiamento 1 e 5, são estudos que se tem a partir de experiências que tem em redes hospitalares, pode ser de 40 vezes, por exemplo, cancer de mãe. Sim, a gente está falando também de recursos financeiros envolvidos. A prevenção começa, mesmo que a partir de uma visão de rastreio. Já é um início e um entendimento dos atores de que precisam observar isso.
Queria trazer outro tema e perguntar se já entrou no radar e nas discussões, talvez com algum projeto efetivo: esse olhar para a obesidade. Temos hoje no Brasil e no mundo uma epidemia de obesidade e sobrepeso. Ao mesmo tempo, os novos medicamentos, os análogos de GLP-1, têm trazido um impacto relevante no tratamento dessa condição. Imagino que estejamos definindo: vamos investir para ter essa redução? Eu não sei se do ponto de vista do setor, a gente está pensando nisso de uma forma estrutural.
Emmanuel Lacerda – Isso me ajuda a responder sobre o grupo de promoção de saúde e prevenção. Acho que a obesidade está colocada na sociedade como uma necessidade de política de saúde, pública ou privada. As canetas vêm como uma solução tecnológica efetiva do ponto de vista da redução. O que estamos discutindo? O primeiro ponto é o bolso. Hoje, o SUS se prepara para fornecer, mas não vai ser para todo mundo. Possivelmente os protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas vão definir os públicos. Não vai ser uma panaceia para todo mundo, e acho que não deve ser mesmo. Acho que o SUS tem que ser para casos mais graves. Mas as pessoas estão tirando do bolso para ter acesso e muitas vezes acessando tecnologias contrabandeadas, sem qualidade efetiva e sem registro sanitário, colocando a vida em risco. É uma opção sem segurança. E isso nos preocupa. Esse é um aspecto. O segundo aspecto é o acesso à tecnologia sem uma linha de cuidado, que é preocupante. Nas operações do SESI, em que trabalhamos com programas de prevenção, saúde ocupacional e linhas de cuidado, 23% dos trabalhadores da indústria estão reportados e medidos em condições de obesidade. O sobrepeso é maior: chega a 40%, quase 50%. Então, 20% dos trabalhadores da indústria têm obesidade. Urge um olhar de programa para isso, traduzindo em uma linha de cuidado, por liberalidade ou não, até incorporando essas tecnologias e facilitando o acesso, com compartilhamento de custos entre operadoras e empresas. Esse também é outro desafio que a gente tem, mas eu tenho discutido com pessoas do setor de operadoras e parece que faz sentido. Até porque você tira algumas assistências em saúde, por exemplo, cirurgia bariátrica. Isso reduz custos, porque reduz internações, hospitalizações e riscos de recidivas, além de facilitar a reabilitação. Para as operadoras, pode fazer sentido do ponto de vista financeiro. Ah, mas as pessoas vão pagar de qualquer jeito. Acho que esse não pode ser o olhar, porque aí você só está olhando o seu business, a sua lógica de negócio. Se queremos fazer uma linha de cuidado e enfrentar a obesidade, acho que deveria ser uma política. Também vertical, porque não acredito em atirar para todos os lados. Dá para testar mecanismos de valor em saúde e desfechos, de que se fala muito e se pratica pouco. Podemos combinar modelos de remuneração e pagamento a partir de um processo de prevenção e de acesso, envolvendo tecnologia e assistência na obesidade.
A questão de investir em prevenção vem muito da forma como o sistema está organizado, nesse caso da obesidade. Existem tratamentos com impacto direto, que reduzem o peso e o risco de bariátrica ou de outras doenças, com menos comorbidades e complicações. Mas normalmente a gente vai ver isso lá na frente. Você sente no setor uma mentalidade mais aberta de saber que lá na frente vai custar e, por isso, gastar agora, ou ainda não?
Emmanuel Lacerda – A indústria tem essa preocupação porque o trabalhador é mais longevo na sua atividade produtiva. Ao contrário de outros setores, a rotatividade na indústria é menor, por natureza, pela qualificação técnica de uma operação industrial. Geralmente é de longo prazo. As políticas de retenção são mais importantes como política de RH na indústria. Ao contrário de outros setores, que podem ter níveis de rotatividade maiores. Perder um trabalhador de uma determinada operação é uma perda. Existe um conhecimento, uma competência técnica acumulada durante anos. Por isso, cuidar, só como política de RH, já é crítico para essas pessoas. A empresa já tem essa informação no exame ocupacional. O IMC está lá. Ela sabe sobre sua população, minimamente. Ela não precisa nem da saúde suplementar para isso. Já tem esse dado do cuidado de saúde a partir do ocupacional. É tomar a decisão de como fazer. A questão é que ela não sabe necessariamente como fazer e não tem os apoios, as estruturas. Seria preciso o sistema de saúde como parceiro para organizar esses programas e cuidados, mas não tem.
Você me respondeu do ponto de vista das empresas. E do setor, agora?
Emmanuel Lacerda – O custo da obesidade é um dado que todo mundo reproduz: 60 mil reais ao ano. Por si só, isso já paga qualquer programa de prevenção. Não precisa esperar tanto tempo para demonstrar o impacto econômico do valor evitado por um investimento. O que eu vejo é que não tem essa orquestração. Vejo nossos colegas da indústria que fornecem as canetas, as farmacêuticas. Hoje já temos nacionais, com tecnologia própria, licenciada, transferindo. Elas querem fornecer o medicamento, a tecnologia. Isso está combinado na linha de cuidado? Não está. E aí o sistema de saúde não se organiza.
“Você não tem um empacotamento, porque essa não é a lógica dos planos de saúde. Há dificuldade para organizar uma oferta qualificada e de impacto para o beneficiário. Todo mundo quer ter seu resultado de negócio, mas isso dá trabalho. Esse desenho exige conversa”.
Todo mundo quer maximizar seu resultado, mas, no final, a maximização tem que ser da linha de cuidado, não de suas etapas. Isso é o valor em saúde verdadeiro. Porque o desfecho é possível. As tecnologias demonstraram que as pessoas têm melhor qualidade de vida e perdem peso, mas isso não pode virar um processo de acesso sem uma linha de cuidado. Conheço um caso de empresas que estão dando acesso sem linha de cuidado. E eu acho assim, olha, não faça isso. Infelizmente, há médicos que prescrevem para dar acesso sem atividade física ou orientação nutricional. Há efeitos colaterais, e você precisa de um olhar sistêmico nesse cuidado.
Dá mais trabalho fazer diferente?
Emmanuel Lacerda – Sempre. Mas a gente é movido a desafios. Eu gosto.
Uma das outras propostas discutidas pelo MES é criar um mecanismo para compartilhar o custeio de terapias de alto custo, especialmente em oncologia. Queria entender como que isso funcionaria na prática. Existe mesmo essa discussão para ter um fundo de custeio?
Emmanuel Lacerda – Na verdade, não necessariamente será um fundo. A gente está chamando isso de mecanismo porque a gente está estudando o assunto. Na verdade, nós vamos fazer um conjunto de quatro estudos. Quando falamos que a solução seria dada dentro da indústria, trouxemos fortemente a indústria farmacêutica, via a representação do Sindusfarma, que veio conosco nesse projeto. A primeira entrega do estudo é entender de que mecanismo estamos falando. É um fundo? É uma organização social? O que é? É uma operadora que pode? É uma seguradora? Esse estudo jurídico, de personalidade jurídica, é o primeiro passo para entender e posicionar o mecanismo. Se discutem os fundos, os fundos de resseguro, mas a gente não quer partir de premissa nenhuma. A gente quer ver qual é o melhor desenho jurídico para poder operar isso. Esse é o primeiro passo. Concluímos e apresentamos hoje no Conselho Estratégico.
Já quero um spoiler.
Emmanuel Lacerda – Está muito legal. É o primeiro passo, e será apresentado para o sistema de saúde. Definido isso, vem o segundo passo. Vale um ajuste: começamos discutindo oncologia, mas as empresas disseram: vamos olhar a judicialização. Independentemente de serem tratamentos oncológicos, vamos olhar o que mais se judicializa. Por acesso a tecnologias, porque há outros tipos de judicialização, por outras motivações. A gente ampliou, não é só para oncologia. Também observar os motivos de judicialização, no rol e fora do rol, porque há judicialização de rol. Do que está previsto, mas não chega. Não deveria ter, mas tem. E fora do rol também. As empresas, o estipulante, perguntam: por que não olhar o que está fora do rol também? Se é um melhor tratamento e pode estar dentro de um mecanismo desse, por que não? Rol, extra-rol e foco na lista de judicialização. Judicialização não é bom para ninguém. Para a indústria farmacêutica, não é bom porque mexe com a previsibilidade e desestrutura o sistema assistencial. Para o estipulante também, porque perde a previsibilidade da sua apólice junto ao operador. O foco não é restrito a uma área terapêutica. São várias. Entendido o mecanismo, o segundo passo é definir as tecnologias, do ponto de vista de requisitos de avaliação de tecnologias em saúde próprios para montar isso. E, em especial, é um processo autorregulado desse grupo de empresas. O objetivo não é alterar os modelos de incorporação da saúde suplementar. Não temos essa pretensão.
Mas seria uma ATS própria?
Emmanuel Lacerda – Precisaria ter uma ATS própria para funcionar. E não seria obrigatório. A indústria que não queira participar não precisa. É uma oferta para quem tem interesse em trabalhar com esse mecanismo, em parceria com as operadoras, porque não estamos falando de uma oferta assistencial nem de um plano de saúde. É uma forma de dar acesso a uma tecnologia. Isso tem que se complementar com a atuação das operadoras. E assim por diante. Depois evolui nas questões atuariais e parte para a oferta. Compomos com quem tem interesse. É um conjunto de quatro estudos, a gente começando agora.
O primeiro resultado será apresentado agora. Pensando no cronograma, em quanto tempo devemos ter esse cenário desenhado?
Emmanuel Lacerda – O segundo estudo, que tem os mecanismos de ATS e de compartilhamento de riscos, os vários instrumentos que estariam dentro, fica para abril do ano que vem, 2027.
Fica para 2027, 2028. Entendi. O objetivo é criar esse mecanismo, que ainda não sabemos qual é, para que as empresas participantes possam adotá-lo em parceria com as operadoras e fornecer acesso a algo que não está no rol ou que está, mas às vezes não é fornecido.
Emmanuel Lacerda – Exatamente. A indústria tem autogestões também. Com autogestão, fica mais fácil fazer esse mecanismo funcionar de forma direta.
Como as operadoras têm entrado nessas discussões, ou ainda não?
Emmanuel Lacerda – Ainda não, porque isso é um pedido das duas indústrias. Precisamos amadurecer internamente para não ter nenhum viés. Mas isso não vai excluí-los. Eu tenho conversado com o mercado de seguradores que estão interessados em acompanhar o processo. Acho legítimo, mas ainda não é o momento. Acho que a partir de hoje já começa essa discussão mais ampliada. Vamos ampliar à medida que evoluímos. Agora é uma discussão interna. As decisões são feitas de uma forma colegiada dentro do movimento desse grupo de trabalho.
Como você tem sentido a participação de quem está no Movimento Empresarial pela Saúde? Você falou um pouco antes que a gente fala bastante de saúde baseada em valor. A gente fala muito e faz pouco. Você vê essa pauta avançando além da teoria?
Emmanuel Lacerda – Eu vejo casos isolados. Na prática, o que impera é o modelo fee-for-service, baseado em operações. Acho que não é uma realidade. E quando digo que não é, não é. Não precisa ser feito. Acho que precisa ser feito. Precisamos amadurecer nisso. A saúde baseada em valor, como falei na obesidade, requer uma governança mais complexa, da prevenção até a reabilitação. Sempre falo aos colegas do setor farmacêutico que, num modelo de remuneração baseado em valor, talvez se vendam menos medicamentos, mas se ganhe mais por menos. Isso não é muito a lógica do negócio. O hospital quer maximizar a ocupação dos leitos, todo mundo quer maximizar seus resultados. Talvez haja menos hospitalizações, assim como você vai vender menos. Pensar dessa forma causa estranheza. No que entendo de valor em saúde, o que importa é o desfecho de saúde. O desfecho de saúde não vai impor necessariamente olhar o início da cadeia assistencial da pessoa, que começa na prevenção. Talvez os generalistas, os médicos de família e a atenção primária sejam mais bem remunerados nesse processo de remuneração em valor, porque eles vão entregar mais valor. Uma vez que essas vidas tenham necessidade de alto, precisa cumprir fielmente o que há de melhor para essa pessoa.
Pensando nessa reorganização da saúde, falamos muito dos caminhos, de como escolhemos prestadores e serviços, e de qualidade assistencial. Faria sentido contratar ou optar por uma operadora que cuida melhor dos beneficiários, porque tem mais linhas de cuidado e investe mais em prevenção? Poderia ser também um indicador?
Emmanuel Lacerda – Faz todo sentido. Isso vai ao primeiro projeto, da linha de vida, da portabilidade do cuidado. O segundo passo da regulação é isso, porque vira uma métrica. E aí qualificaria, talvez, o IDSS da ANS. A ANS tem outros instrumentos que pode criar como incentivos de quem melhor cuida? Onde essa vida passou? Isso pode ser uma métrica de regulação para incentivar as operadoras que melhor cuidam. O alcance regulatório da ANS, a princípio, é restrito às operadoras, mas ela também tem outras competências que podem chegar ao prestador. Acho que revoluciona nesse sentido, porque fica claro quem cuidou melhor. Se uma carteira vai para uma segunda operadora e deixou de fazer os exames, a operadora que a recebeu vai precisar investir em prevenção e regularizar os exames preventivos. Ela precisa ser incentivada para isso. E a outra precisa ter algum tipo de sanção porque não fez o que tinha que ser feito naquela época.
Sim, porque normalmente quando você vai fazer uma contratação de um plano, por exemplo, você olha a rede de prestação de serviço, principalmente. Não mais do que isso. É interessante esse ponto.
Emmanuel Lacerda – Essa questão da rede é importante também. Fizemos uma pesquisa em 2024, e é interessante o perfil do RH. O RH sofre muita pressão do beneficiário em torno da qualidade do plano de saúde. É uma posição ingrata. É uma demanda genuína do beneficiário. Eles querem rede. A pessoa diz: eu quero rede. Do outro lado, o CFO pede menos custo. É uma coisa que não fecha muito. Alguém vai sair feliz. É necessária uma gestão de rede com o povo adulto. Essa é uma discussão paralela no MES: a capacidade de influenciar lançamentos de produtos e desenhos de rede. Acho que as operadoras têm que demonstrar mais flexibilidade na montagem disso com o estipulante. Tem estipulantes que já têm capacidade de discussão com as operadoras em desenhos de rede, ao longo do produto. Você lança um produto com uma rede engessada, eu acho que isso prejudica a capacidade das empresas de fazer uma boa gestão de saúde.
E esses desenhos já estão acontecendo?
Emmanuel Lacerda – Trabalhamos esse assunto numa imersão da Academia da Saúde da Indústria, em que mostramos que é possível fazer com a operadora. Muitos perguntam: como faço isso? Tenho consciência de fazer isso? Fizemos um processo de qualificação e imersão para que tenham essa competência nas negociações.
Queria entrar agora no tópico de interoperabilidade. Há o ideal, o desejado. No SUS, você trouxe a RNDS, que está avançando, mas talvez não com a velocidade que gostaríamos. Na saúde suplementar, há pilotos e funciona para algumas coisas. A interoperabilidade é fundamental para que todos esses projetos do MES avancem, ou dá para seguir em paralelo?
Emmanuel Lacerda – Não. Sem interoperabilidade, essa fragmentação, linha de cuidado, não acontece. Porque, do contrário, seriam verticalizações. Mesmo nas verticalizações, há quem diga que dentro de um hospital há vários hospitais que não são interoperáveis. Há áreas de hospitais que não interoperam entre si. Ela é premissa de tudo que falamos aqui. Mas é premissa para quê? Essa é a discussão que aprendi com meu amigo Marco Bego, lá de InovaHC. É para gerar capacidade de analytics ou para facilitar as transações operacionais? Acredito mais no segundo, no transacional dos dados como apoio ao cuidado. Porque todo mundo precisa ter o seu lake, sua inteligência de saúde, gerar seus modelos para dar uma melhor assistência. Mas no transacional, ninguém é suficiente dentro do seu serviço assistencial. Você precisa interoperar. Interoperar não é integrar. Há uma confusão. Integrar não é só você mandar o dado, você precisa ter a troca. Você precisa mandar e você precisa receber. Isso é fundamental se todos estiverem dentro de uma governança, de uma organização para um melhor cuidado. Programas de prevenção e VBHC não acontecem sem isso. O desafio, pelo menos no campo privado, é quem vai fazer isso. A portabilidade do cuidado é um mecanismo interoperável. A ANS vai fazer isso, porque já tem o dado. Só precisa devolvê-lo. Porque o dado de utilização ela já tem. Então, ela já atende todas as operadoras. Precisa devolver para a operadora que recebeu a portabilidade. Ela não devolve. Está tudo com ela. É uma interoperabilidade simples, porque não estamos falando de dados clínicos. São dados de utilização. E precisa devolver tudo? Óbvio que não. Vai precisar devolver se aquele trabalhador fez ou não colonoscopia, por exemplo, naquele momento da vida.
Ou seja, já tem isso?
Emmanuel Lacerda – O dado já existe. Não precisaria de captura de dados ou certificação. As operadoras enviam os dados à ANS obrigatoriamente. É organizar isso e devolver de uma forma gerenciada. Começamos com o simples da auto-interoperabilidade, porque o mais complexo exige mais. Vamos falar de obesidade? Vamos montar uma máquina de auto-interoperabilidade para a obesidade, em cima de programas. Com todos os atores? Talvez não, sejam com atores que queiram, de forma genuína, cuidar desse assunto.
Dos temas que você trouxe, só não falamos em profundidade sobre o complexo econômico-industrial da saúde e a necessidade de mais no Brasil. Queria te ouvir sobre como está essa discussão e por que faz sentido para o MES entrar nesse debate.
Emmanuel Lacerda – A indústria da saúde é indústria. Por si só, é um direito da cadeia de valor da saúde. Tem uma agenda estruturada, de impacto, no MES, o Movimento Empresarial pela Saúde. O acesso e o fornecimento das tecnologias também fazem parte das soluções de saúde. Isso é uma agenda totalmente aderente e prioritária para nós. É a gênese da CNI, da Confederação Nacional da Indústria. A indústria nacional cresceu, já temos multinacionais brasileiras no mundo, motivo de orgulho para nós. Mas há essa questão da capacidade de pesquisa e desenvolvimento. O déficit da balança comercial se dá menos em volumetria e mais em valor agregado. E o valor agregado está diretamente relacionado à capacidade de pesquisa e desenvolvimento. Talvez menos na forma granular, em unidades de produtos desenvolvidos, e mais em valor agregado em termos de. Esse é o gargalo da indústria brasileira. E que a gente precisa atacar. As empresas já acordaram para esse ponto e querem investir. Há um ciclo de transferência de tecnologia fundamentado em compra pública: as PDPs, que criaram estruturas de competências no Brasil baseadas em transferência de tecnologia. Mas também de produtos com ciclos de vida bem avançados. Acho que as políticas de transferência de tecnologia via PDPs funcionam para esse propósito e têm que ser incentivadas. Mas temos que atacar o outro lado: novas tecnologias e inovações. É nesse ponto que o grupo está trabalhando.
A gente está em ano eleitoral e a gente não vai falar de eleição aqui, mas eu queria te ouvir um pouco sobre propostas. Faz sentido o MES organizar propostas para os possíveis candidatos? Quais vão ser os temas? Isso já está pronto?
Emmanuel Lacerda – A gente fez um balanço de todas as propostas dos principais candidatos. O que foi unânime em todos os programas dos candidatos? Saúde digital. Fizemos uma análise que depois posso compartilhar com você, sem juízo de valor. Eu acho que o futuro é esse. Isso é interessante, e ontem a gente viu no Conecta Saúde. Precisamos organizar a saúde e colocar o paciente, o beneficiário, a pessoa saudável no centro. Organizar em torno dele. Não organizamos assim. A gente organiza em torno de um hospital, em torno de uma oferta de serviço. Não organiza em torno da pessoa. O digital ou o phygital, porque também precisamos de estruturas físicas para complementar essa jornada, precisa ser em torno das pessoas. Pouca gente na assistência à saúde se organiza dessa forma, com exceção da Estratégia de Saúde da Família, que se organiza em torno das comunidades. Na saúde suplementar, as autogestões, sim, porque têm aquela população de que cuidam. Essa é a visão que precisa mudar, que discutimos muito no SESI. A gente tem que organizar esse cuidado em torno das pessoas. E onde é que estão essas pessoas? Não estão aqui na Faria Lima. Elas estão no agro, estão em mineração, estão na construção civil, estão em locais que não têm vazios assistenciais, porque é fácil falar de um sistema de saúde privada em São Paulo. Também há regiões do estado de São Paulo com vazios assistenciais. Esperar que as pessoas se organizem em torno da saúde não é um modelo. O digital é isso. Por isso que eu gostei de todos os candidatos terem abordado isso. Fazer com que a saúde chegue às pessoas. No meu caso, chegar ao chão de fábrica, onde as pessoas estão. A pessoa passa oito horas do dia trabalhando e não encontra uma UBS aberta depois que sai. Vai cuidar da saúde ou não vai? Temos que trabalhar o digital nesse sentido. Fico feliz de todos os candidatos colocarem isso como prioridade nos programas de saúde.
Como você vê empresas hoje que são abertas e que não necessariamente oferecem esse tipo de benefício para os seus funcionários? Algumas vão reduzindo os tipos de planos e orquestrando melhor as redes. Como você vê esse futuro? A gente corre esse risco de a saúde deixar de ser um benefício?
Emmanuel Lacerda – A empresa recuar na oferta de um benefício desse é muito difícil. Não conheço casos de empresas que ofertam e deixam de oferecer, porque isso está em acordo coletivo e impacta diretamente a motivação, a retenção e o clima organizacional. Eu não vejo grandes empresas, recuando nessa política de recursos humanos. Nem existem essas discussões. Mas há preocupações sobre a capacidade de manter. O sistema de saúde precisa entender que as empresas e a indústria, em particular, também estão submetidas a impactos. Os seus fluxos de caixa, por exemplo, são impactados. Vem uma questão exógena como um tarifaço. Impacta diretamente muitos setores industriais aqui. Empresas grandes podem ter um colchão de fluxo de caixa que consiga sustentar. As empresas de capital intensivo, com menos mão de obra, talvez consigam absorver melhor um aumento de custos. Mas também têm limites, porque isso começa a ser visto nas estruturas de custo. As mais intensivas em mão de obra vão ter mais dificuldades. Esse futuro da saúde pode passar por uma mudança na automação das atividades operacionais das indústrias. Isso pode repercutir em menos mão de obra e, portanto, menos beneficiários. Não é uma questão de corte de benefício, é uma questão de mudança também do perfil. É algo pouco discutido pelas operadoras, que muitas vezes transferem isso para os corretores. Acho que eles também não têm muita compreensão do cliente. Deveriam exercitar mais a escuta, porque existe um cliente em transformação, principalmente a indústria, que é a que mais contrata. Se meu negócio está ligado diretamente à organização do trabalho, tenho que observar esse futuro do trabalho com carinho, porque é meu cliente. E se eu reduzir o número de trabalhadores da indústria vai ter menos gente contratando plano de saúde. Não só por uma questão de inviabilidade financeira. Essa é uma preocupação, mas há também a do não acesso à saúde suplementar, que se torna quase impossível. Converso com empresários de médias empresas. Nas nossas operações, o SESI atende muito mais pequenas e médias empresas do que grandes. É inviável ter um plano de saúde. Não que o empresário não queira. Há muito empresário que gostaria de oferecer, mas o mercado não oferece O engessamento do benefício do plano de saúde, do novo mês de economia, não tem permitido outros modelos de ofertas e programas, de produtos e tipos de planos, para dar acesso à saúde em complementação ao SUS. É uma necessidade que urge nas discussões, sempre por liberalidade, porque tem que ser uma política de benefício.
Quais são os próximos passos e olhares do Movimento Empresarial pela Saúde? Alguma pauta que você não trouxe aqui vai começar a ser olhada, talvez com um grupo de trabalho?
Emmanuel Lacerda – Eu acho que tem uma demanda dessas empresas. Falei da fragmentação da gestão da saúde ocupacional e da assistencial, do benefício. Devemos trabalhar em 2027 e trazer o ocupacional mais próximo. Possivelmente vamos constituir um grupo de trabalho para segurança e saúde no trabalho, olhando as questões específicas de saúde ocupacional dessas empresas. É um mundo de políticas de trabalho, mas também tem relações com a previdência e com a saúde, numa visão integrada. A Seguridade Social era formada por esse tripé, trabalho, previdência e saúde. Embora as políticas públicas se façam separadamente, dentro da empresa isso está junto. É uma agenda para 2027, talvez um quinto grupo de trabalho com esse olhar. Também há um desejo, que não aparece forte, mas existe em algumas autogestões e empresas: ESG ligado à pegada de carbono da saúde. Acho que é uma pauta de vanguarda. Na COP, é um assunto que começou em Belém no ano passado e tem crescido. É a terceira COP a que vou, e vejo crescer essa agenda de clima e saúde. Pode ser uma oportunidade para as empresas que cuidam da saúde: reduzir a pegada de carbono a partir do melhor cuidado das pessoas.
Quais pautas nós, no Futuro da Saúde, temos que prestar atenção?
Emmanuel Lacerda – Prevenção, prevenção, prevenção. E cuidado. Isso não pode ser colocado em menor importância quando discuto saúde. Geralmente vejo isso como uma pauta menor, talvez porque não seja de grande importância do ponto de vista da mercantilização da saúde.