Transformações na saúde demandam tecnologia e humanização
A medicina vive um período intenso de transformação. Os avanços da inteligência artificial, da medicina de precisão e da saúde digital, somados às mudanças demográficas, estão redefinindo o papel do médico e dos sistemas de saúde. Além de lidar com novas tecnologias, cada vez mais os profissionais precisam dominar temas que vão da parte clínica à gestão. E, mais do que isso, precisarão desenvolver capacidades capazes de construir a ponte entre a tecnologia e a humanização.
A preparação do sistema de saúde e do cooperativismo médico para um cenário marcado pela complexidade permeará as discussões da 55ª Convenção Nacional Unimed, que acontece entre 6 e 9 de outubro, em Porto Alegre, RS. Na agenda, aparecem temas como inovação em novos modelos de cuidado, convergência tecnológica e novo perfil do médico nesse contexto.
A nova realidade exige uma avaliação das estratégias, valorizando pontos que já funcionam e oportunidades no horizonte. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os desafios que devem marcar o setor nos próximos anos passam pela crise climática, ampliação do acesso e da equidade, combate às doenças crônicas e pelo esgotamento e escassez de profissionais. São problemas complexos que exigem respostas construídas de forma colaborativa entre os mais diversos players.
Nesse cenário, a própria lógica por trás da estruturação do cuidado demanda um novo direcionamento. Ganha espaço a ideia de gerenciamento da saúde em vez de somente tratar doenças, numa abordagem mais ligada à prevenção. Assim, o protagonismo se volta para a atenção primária, que pode adotar recursos como telemedicina, ferramentas de IA e big data para ampliar seu impacto.
“Preparamos a programação a partir das questões que já fazem parte da rotina das cooperativas, como o envelhecimento da população, o avanço da tecnologia e a pressão sobre a sustentabilidade da saúde suplementar. O Sistema Unimed está presente em nove de cada dez municípios brasileiros e atende mais de 20 milhões de beneficiários. Essa dimensão nos dá a responsabilidade de levar à Convenção um debate que contribui para o futuro da saúde no país”, afirma Omar Abujamra Junior, presidente da Unimed do Brasil.
Nova saúde, novo médico e novo ambiente de resiliência
Esse cenário traz novas demandas e desafios. Passado o receio inicial em relação à inteligência artificial, hoje a percepção sobre a tecnologia amadureceu e o entendimento é de que ela não deve substituir o médico. Ela permite expandir a capacidade humana, oferecendo apoio clínico, eliminando tarefas burocráticas e liberando tempo para o atendimento de pacientes. É preciso, portanto, que o médico seja capacitado para lidar com as ferramentas mais modernas, não apenas do ponto de vista técnico, mas também crítico.
Além disso, o movimento de inovação se espalha também para a própria relação com o paciente. O indivíduo que chega hoje ao consultório tem mais acesso à informação, embora nem sempre qualificada, e assume uma postura mais autônoma em relação à própria saúde. Para oferecer o melhor cuidado e ser capaz de se conectar com esse paciente, as habilidades humanas, colaborativas e adaptativas assumem um papel protagonista.
Todos estes temas estarão em painéis na 55ª Convenção Nacional Unimed, com grandes referências nacionais e internacionais. “Os debates olham para a saúde de forma completa. Por isso, a discussão sobre inteligência artificial vem acompanhada de questões éticas e de proteção de dados, e a reflexão sobre o futuro da medicina passa também pela formação dos novos médicos, como nos temas explorados por Milton de Arruda Martins e Eugênio Mussak”, destaca Omar. “Com a mesma lógica, convidamos a economista Carla Beni, da FGV, para apresentar os cenários para 2027, e Heloisa Bedick para tratar da gestão de riscos, porque as decisões sobre inovação precisam estar ancoradas em uma leitura sólida do ambiente econômico e da governança das organizações de saúde.”
Outro painel de destaque será com o médico futurista Rafael Grossmann, que abordará justamente os limites entre IA e transformação do cuidado. Neste mesmo tema, Ronaldo Lemos, advogado, pesquisador e especialista em tecnologia, explorará desafios jurídicos, éticos e regulatórios no uso da IA na saúde.
E há questões ainda mais recentes. Os eventos climáticos extremos como ondas de calor e chuvas torrenciais acenderam o alerta para a necessidade de desenvolver sistemas de saúde mais resilientes. Isso porque, entre os impactos provocados pela crise, está a ocorrência de quadros como arboviroses e eventos cardiovasculares, sobrecarga do sistema e até mesmo o comprometimento de infraestruturas dos serviços de saúde. Ao avaliar os custos de danos diretos e indiretos à saúde, a OMS estima que o montante varie entre US$2 bilhões e US$4 bilhões por ano até 2030 – e destaca que áreas com infraestrutura de saúde precária serão as menos capazes de lidar com a situação sem assistência para se preparar e responder.
Essa conexão também será debatida em um painel com o título “A evolução exige cooperação: ciência, clima e inteligência diante de um mundo em redefinição”, que terá as presenças do climatologista Carlos Nobre e do pesquisador Alysson Muotri. A ideia da discussão será conectar tecnologia, mudanças climáticas, humanização e as reconfigurações necessárias para responder a esse cenário.
Governança e transformação cultural
Desafios de tamanha complexidade demandam uma resposta coletiva, sistêmica e contínua, com integração entre governos, universidades, setor privado e indústria. O objetivo deve ser unir esforços, expertises e construir uma agenda em comum que contemple as particularidades do panorama brasileiro. Nesse contexto, instituições capazes de articular diferentes perspectivas e transformar conhecimento em ação ganham relevância.
Para orquestrar tudo isso, é preciso investir no alicerce das instituições e desenvolver um ambiente fértil. O líder assume o papel de conduzir essas mudanças. Uma das principais qualidades da liderança é a capacidade de enxergar conexões entre fenômenos aparentemente independentes. Somado a isso, também se torna importante a habilidade de compreender a revolução tecnológica na saúde como um organismo vivo e de explorar a combinação de diferentes elementos para criar modelos de cuidado, negócios e novas expectativas dos pacientes.
Nesse cenário, as organizações mais bem-sucedidas serão aquelas capazes de antecipar riscos e se adaptar rapidamente em múltiplas frentes. Ganham destaque estratégias combinadas de monitoramento e vigilância, treinamento para atuar em situações de ocorrência de eventos climáticos extremos e preparação da infraestrutura dos serviços de saúde. E os avanços recentes apontam a direção: mais do que uma saúde baseada em tecnologia, o cuidado de excelência indica uma saúde mais preditiva, humanizada e focada em desfechos de valor para o paciente.
“O cooperativismo médico nos dá uma forma própria de responder às transformações da saúde. A força do Sistema Unimed está justamente na capacidade de reunir diferentes realidades, conhecimentos e experiências em torno de um propósito comum. A Convenção é uma expressão desse modelo, um espaço em que as Unimeds se encontram para compartilhar aprendizados, construir caminhos e fortalecer, de forma conjunta, a saúde que queremos oferecer aos brasileiros. Temos a oportunidade de colocar diferentes perspectivas em diálogo e sair desse encontro com uma visão ainda mais integrada sobre os caminhos que o setor precisa percorrer”, afirma Abujamra Junior.