Interoperabilidade, próxima etapa da mudança digital na saúde
A transformação digital na saúde brasileira esteve concentrada na informatização de processos, implantação de prontuários eletrônicos e adoção de novos sistemas. Agora, a agenda do setor começa a mudar de patamar.
A prioridade deixa de ser apenas digitalizar operações e passa a conectar informações de forma segura, interoperável e auditável, criando uma infraestrutura capaz de apoiar decisões clínicas, regulatórias e econômicas em tempo real.
Essa é a principal conclusão da 3ª edição do Radar Estratégico da Saúde, publicada pela Associação Brasileira de CIOs e Gestores de Tecnologia em Saúde (ABCIS). Ao analisar os principais acontecimentos registrados entre maio e junho de 2026, a entidade identifica uma mudança estrutural: a migração de um modelo baseado em sistemas isolados para um ecossistema conectado, em que dados passam a desempenhar papel central na gestão e na sustentabilidade das organizações de saúde.
Da digitalização à infraestrutura de dados
Mais do que reunir acontecimentos recentes do setor, o Radar mostra que iniciativas aparentemente independentes — da prescrição eletrônica à modernização da assistência farmacêutica, passando pelos desafios da saúde suplementar e pela vigilância epidemiológica — fazem parte de uma mesma transformação estrutural. Em comum, elas apontam para a construção de um ecossistema nacional baseado em interoperabilidade, governança e uso estratégico de dados.
Entre as iniciativas analisadas está a integração do Sistema Nacional de Controle de Receituários (SNCR), da Anvisa, com plataformas de prescrição eletrônica. Na avaliação da ABCIS, a medida amplia o papel da prescrição digital, que deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade para integrar uma infraestrutura nacional voltada à rastreabilidade, segurança, compliance e interoperabilidade regulatória ao longo de toda a jornada do medicamento.
Outro exemplo é a modernização da assistência farmacêutica no SUS, com a substituição gradual do sistema Hórus pelo eSUS Assistência Farmacêutica, conectado à Base Nacional de Dados da Assistência Farmacêutica (BNAFAR) e à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). O movimento fortalece a farmácia como fonte estratégica de informações para continuidade do cuidado, segurança do paciente e gestão populacional.
Pressão regulatória acelera maturidade digital
O Radar também mostra que a evolução tecnológica ocorre em paralelo ao aumento das exigências regulatórias e econômicas enfrentadas pelo setor.
A publicação destaca o crescimento da judicialização da saúde, o avanço das demandas por transparência econômico-financeira, o aumento das reclamações de beneficiários e a pressão permanente sobre os custos assistenciais. Nesse contexto, a gestão baseada em dados deixa de ser um diferencial tecnológico para se tornar um requisito para operadoras, hospitais e demais prestadores.
Outro ponto destacado é a necessidade de ampliar a capacidade de resposta diante de eventos epidemiológicos. A expansão de leitos para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), as campanhas de vacinação e as iniciativas de farmacovigilância reforçam a importância de modelos capazes de integrar informações e produzir análises preditivas que apoiem decisões em tempo real.
“O que estamos observando é uma mudança de paradigma, em que a competitividade e a sustentabilidade das organizações de saúde dependerão cada vez mais da capacidade de integrar dados regulatórios, assistenciais e econômicos em ecossistemas interoperáveis e governados”, afirma Alex Vieira, CIO do Hcor e presidente da ABCIS.
O CIO assume um papel mais estratégico
A mudança apontada pelo Radar também redefine o papel das lideranças de tecnologia nas organizações de saúde. Se, na primeira fase da transformação digital, o foco esteve na implantação de sistemas e na sustentação da infraestrutura, agora o desafio passa a ser integrar diferentes ambientes, garantir a governança dos dados e aproximar tecnologia, assistência e regulação.
Na visão da ABCIS, a evolução da saúde digital exige CIOs cada vez mais envolvidos nas decisões estratégicas das instituições, atuando como articuladores da interoperabilidade, da maturidade digital e da adoção de modelos baseados em dados para apoiar a gestão e a tomada de decisão.
Inteligência estratégica para a tomada de decisão
Mais do que reunir notícias do setor, o Radar Estratégico da Saúde busca interpretar como mudanças regulatórias, tecnológicas, econômicas e assistenciais se conectam e influenciam a gestão das organizações.
A proposta é oferecer às lideranças uma ferramenta de inteligência capaz de transformar acontecimentos dispersos em tendências estruturantes, apoiando a antecipação de riscos e oportunidades. Em um cenário de crescente integração entre regulação, assistência e tecnologia, a capacidade de conectar e governar dados tende a se consolidar como um dos principais diferenciais competitivos para hospitais, operadoras e demais organizações de saúde.