Avançar no diálogo do setor e ultrapassar 25% da população
O Congresso Nacional de Hospitais Privados (Conahp) de 2026, que acontece entre 14 e 15 de outubro, teve como tema em seu primeiro dia o olhar para o futuro da saúde e das instituições. Executivos e especialistas apontam que, apesar das eleições federais e estaduais, a tendência é que os problemas e os desafios do setor continuem semelhantes. Mas isso não quer dizer que o setor deve ficar parado. A cobrança é por mais diálogo para elencar pautas comuns para diferentes elos.
“Do ponto de vista imediato, a grande questão inicial de 2027 é, pelo menos, a manutenção do orçamento da saúde. Para a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), a primeira questão é dentro do próprio setor de saúde suplementar. Conversa-se pouco e nem sempre se conversa bem, e isso faz com que o setor se apresente ao país e ao governo de forma pulverizada, em dezenas de dezenas de pleitos, que são específicos de apenas uma entidade ou apenas um setor”, afirma
A ampliação da saúde suplementar também é outro tema considerado prioritário. O setor possui 25% da população brasileira como beneficiário de planos de saúde. Historicamente, o crescimento está atrelado à redução do desemprego. Contudo, apesar do número recorde, com mais de 53 milhões de beneficiários, a cobertura não ultrapassa esse teto de 25%. Por isso, executivos defendem que é preciso questionar e encontrar caminhos para aumentar o número de pessoas com planos de saúde.
“A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) se coloca à disposição para coordenar um diálogo. A partir da constatação de que há um conflito, o primeiro passo é todo mundo sentar à mesa e debater, construindo o consenso possível. Já ouvi pessoas dizendo que não querem se sentar. Me coloco à disposição, mas tem que haver a vontade de todos”, aponta Wadih Damous, diretor-presidente da ANS, durante painel com presença de representantes de hospitais, planos de saúde e indústrias farmacêuticas.
Desafios da saúde suplementar
“Estamos há 38 anos com esse sistema de saúde. O Brasil sabe responder se quer mais
saúde suplementar ou está satisfeito com 25%? O modelo deu certo nesse período. Mas o que nos trouxe até aqui nos leva mais 38 anos? A energia que nos trouxe até aqui não é suficiente para nos levar daqui pra frente. Precisamos parar e analisar. Queremos uma proposta que abra futuro”, provoca Antônio Britto, da Anahp.
O pedido de mais diálogo no setor tem como mote resolver questões históricas, mas também busca ampliar o número de pessoas com acesso a planos de saúde. Hospitais, indústrias de dispositivos médicos, farmacêuticas e operadoras podem ser beneficiadas se o setor encontrar caminhos para ultrapassar os 25%.
A preocupação sobre a sinistralidade de pequenas e médias operadoras foi apontada como uma das principais da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). “Se olharmos para as últimas décadas, elas tinham sinistralidade média menor do que a das grandes operadoras, e hoje isso está se invertendo. O fato é que estamos incorporando tecnologias a carteiras que não conseguem diluir esse custo em escala. Como vamos aprimorar o modelo para trazer mais vidas e fazer essa diluição?”, aponta Marcos Novais, diretor executivo da entidade.
Dados da ANS apontam que a sinistralidade média do setor foi de 81,9% no 1º semestre deste ano. No entanto, separando por porte das operadoras, as pequenas atingiram 79,5%, as médias 82,8% e as grandes 81,9%. A agência incorporou 25 itens em 2025, entre procedimentos, medicamentos, indicações e ampliações de uso. A lei 14.307, de 2022, estabeleceu prazo máximo de 180 dias para avaliação de tecnologias na saúde suplementar e incorporação obrigatória de tratamentos incluídos no SUS.
Tema da Agenda Regulatória 2026-2028 da ANS, a discussão sobre linhas de cuidado na saúde suplementar pode ganhar força no próximo ano, impulsionada pelo diretor-presidente da agência, Wadih Damous . “É o debate que quero trazer para a regulação, assim como os temas da prevenção e da atenção básica à saúde. Não estou inaugurando nenhuma novidade na ANS, mas estou falando do centro da minha agenda estratégica, que é efetivar na regulação dessa política. É a prioridade da minha diretoria (Desenvolvimento Setorial – DIDES)”, disse ele, durante painel no Conahp.
Na avaliação de Renato Porto, presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), as linhas de cuidado podem, inclusive, colaborar com os próprios planos de saúde e empresas, que são os pagadores do benefício para seus colaboradores.
“Quando fazemos uma linha de cuidado, quem paga esse plano de saúde vai entender que ele é rentável, mostrando que vale a pena e reduzindo o absenteísmo. Precisamos sair da lógica do curto prazo e dialogar para resultados em longo prazo. Saúde não foi feita para se resolver em 30 segundos”, afirma ele.